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Detonado em 28 de fevereiro com um fulminante ataque conjunto de Estados Unidos e Israel ao centro de comando e instalações militares do Irã, e previsto para durar “de quatro a seis semanas”, o mais recente conflito no Oriente Médio chega perto de completar cinco meses com mais uma rodada de ataques de parte a parte e a nítida impressão de que ali se desenrola outra daquelas guerras sem desfecho à vista. Um vislumbre de solução se acendeu no mês passado, quando Donald Trump assinou no esplendor do Palácio de Versalhes (onde jantava com o presidente francês Emmanuel Macron) um “memorando de entendimento” com as autoridades iranianas. O pacto, gabou-se, “abrange tudo o que nos propusemos alcançar”: encerramento do confronto, abertura do Estreito de Ormuz e fim do programa nuclear de Teerã.
Longe disso. O documento de catorze pontos, em linguagem difusa e inconclusiva, perdeu a validade quando drones e mísseis voltaram a cruzar os céus nos últimos dias. Mudando de tom, como é de seu feitio, Trump declarou que novas negociações serão “perda de tempo”, e os dois lados partiram para uma já familiar escalada militar que em nada contribui para solucionar o xis do problema: a livre circulação dos navios que transportam 20% do petróleo consumido no planeta. Sempre no topo das preocupações, mas agora crucial, o controle do Estreito de Ormuz — por onde, diga-se, os petroleiros passavam sem problemas antes do ataque de fevereiro — está no centro da retomada das hostilidades.
O Irã, que se julga dono do pedaço, disparou consecutivas vezes contra navios que não seguiram as passagens e condições por ele estabelecidas desde o início do conflito. Cada disparo foi acompanhado de bombardeios americanos contra suas bases, na trégua mais furada da história, até o fragilíssimo pacto virar fumaça. Na segunda-feira 6, drones do Irã atingiram três cargueiros que utilizavam a chamada rota de Omã, do outro lado do estreito, sobre a qual o regime dos aiatolás tem menos influência. As forças navais dos Estados Unidos postadas na região retaliaram com vigor, Trump declarou nulo o acordo e posicionou o país como “guardião do Estreito de Ormuz”, garantindo passagem a todos, menos aos navios do Irã. Além de não resolver o problema — ressabiada, a maioria dos petroleiros está preferindo esperar para ver —, a declaração reflete mais uma mudança de objetivos de Washington, que já lançou mão de outros que precipitaram a guerra, como pôr fim ao programa nuclear do Irã, derrubar o regime e aniquilar seu arsenal de mísseis.

No calor das últimas ameaças, Trump anunciou até a cobrança de uma taxa de 20% sobre a carga transportada para cobrir as despesas envolvidas na vigilância da passagem, projeto abandonado após reação negativa dos aliados no Golfo Pérsico. Antes do recuo, o preço do barril de petróleo saltou quase 10% — a maior alta em um único dia em seis anos. O sobe e desce coloca mais pressão sobre a impopular guerra, que pode ter custado já 100 bilhões de dólares aos cofres americanos até o momento, três vezes mais do que o divulgado pelo Pentágono. O Irã, por sua vez, disposto a esticar ao máximo a corda da resistência às demandas americanas, mas sem dispor de força aérea ou naval significativa, destruídas no início da guerra, lançou seus drones contra um navio do Kuwait, em uma ação inédita, ferindo quatro marinheiros.
Até então, seu alvo preferencial eram as bases militares em países do golfo aliados dos Estados Unidos — e a nova ofensiva abre a possibilidade de uma escalada enredando outras nações da região. O bloqueio americano aos portos do Irã, que voltou a ser instituído, corta a receita do petróleo de que o país depende para sobreviver, mas Trump também enfrenta um alto custo econômico e político interno, com a guerra que não acaba, em ano de eleições para o Congresso. “Cada lado quer forçar o outro além de um limite de tolerância impossível de determinar”, avalia Kenneth Pollack, vice-presidente do Middle East Institute e ex-analista da CIA.
Durante décadas, a ameaça de fechar o Estreito de Ormuz pairou no ar, sem se concretizar. Mesmo no auge da Guerra Irã-Iraque, na década de 1980, quando mais de 400 embarcações foram atacadas, Teerã demonstrou certa contenção. Uma vez ultrapassada esta linha no conflito atual, o governo tira partido da constatação de que não precisa nem sequer afundar embarcações — basta causar danos capazes de assustar empresas de navegação e seguradoras. “A perspectiva de fechamento é ao mesmo tempo um meio de dissuasão e uma ferramenta de negociação”, explica Ben Soodavar, professor de estudos de guerra do King’s College London. Abrir ou fechar uma nesga de água de 40 quilômetros de largura — eis a questão central de mais uma batalha infindável no explosivo cenário do Oriente Médio.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004

