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Soa, em tudo e por tudo, como discurso de oposição: “Vou dar a virada de chave da qual o Reino Unido precisa. As coisas vão mudar desde já”. No entanto, a fala é de um parlamentar da legenda no poder no Reino Unido: Andy Burnham prepara-se para substituir Keir Starmer como líder do Partido Trabalhista e, por tabela, assumir o posto de primeiro-ministro, e quer deixar claro que não tem nada a ver com o que veio antes. Até pouco tempo atrás prefeito da Grande Manchester e aclamado como o político mais popular do país, ele fala como primeiro-ministro desde que venceu uma eleição extemporânea para o Parlamento, convocada sob medida em meados de junho para abrir seu caminho para a liderança e dela apear Starmer, que poucos dias depois anunciou a renúncia. Pelos trâmites normais, teria que disputar a presidência do partido com outros candidatos, mas nem precisou — na pressa de tirar Starmer do caminho e salvar o governo, 349 dos 403 deputados trabalhistas o apoiaram, tornando matematicamente impossível outra candidatura.
Salvo algum fato extraordinário, Burnham, 56 anos, tomará posse como primeiro-ministro, na segunda-feira 20, com o desafio de converter sua promessa de virar a chave em um plano sólido para navegar as crises que o antecessor foi incapaz de enfrentar. Alçado ao comando da nação em uma eleição em 2024 que os trabalhistas ganharam de lavada, trucidando os rivais conservadores, Starmer provou ser um fracasso como líder. Sem carisma, sem habilidade e sem aliados, não conseguiu pôr de pé reformas econômicas necessárias, mas penosas, e ainda se viu sugado pelo lamaçal de Jeffrey Epstein ao nomear para a embaixada em Washington um diplomata próximo do financista americano explorador de meninas. O golpe derradeiro foi a retumbante derrota nas eleições regionais de maio para a direita radical de Nigel Farage, o arquiteto do Brexit que aproveitou muito bem o vazio de poder para angariar apoio a seu Reform UK.

Exibindo boa dose do charme de que Starmer carece, Burnham se identifica com a esquerda moderada e manifesta notável traquejo para o diálogo, assim como domínio da linguagem das redes sociais, e ainda tem a apresentar bem-sucedidas políticas em Manchester, pelas quais o “rei do norte”, como é chamado, foi reeleito duas vezes. Não está claro como seu “socialismo pró-negócios” conseguirá reverter o declínio do Reino Unido, onde a previsão é de um minguado avanço de 1% do PIB em 2026.
Em um único e breve pronunciamento, Burnham não mencionou temas concretos e urgentes, como o déficit público e a questão da imigração ilegal, motor da extrema direita. Propôs transferir mais poder (e verba) de Westminster para autoridades municipais e delineou uma vaga “missão de dez anos para elevar o padrão de vida da população”. O rei do norte tem três anos, data-limite para a próxima eleição geral, para provar que é mais do que apenas uma versão de jeans e camiseta do fracassado antecessor.
Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004

