No Podcast The Joe Rogan Experience de quarta, Rogan e J. D. Vance refletiram sobre o socialismo, um fenômeno que tem particularmente desafiado Donald Trump e seus aliados, especialmente após uma série de vitórias eleitorais dos Socialistas Democráticos da América (DSA) mês passado.
Vance concordou com Rogan – um apoiador de Bernie Sanders em 2020, que votou em Trump em 2024 – que o movimento socialista atraía muitas “pessoas gentis e empáticas”, mas também que sua popularidade era motivo de preocupação. Vance disse que o socialismo era “uma loucura”, mas uma resposta compreensível diante das dificuldades econômicas dos estadunidenses. “A extrema desigualdade de renda realmente cria problemas”, ele afirmou.
Especificamente sobre o DSA, Vance disse: “Eu penso que suas ideias são uma loucura e […] levarão a um lugar muito totalitário”. “Mas”, ele acrescentou, “tendo a ser um pouco mais empático. Por que os jovens se sentem atraídos ao socialismo nos Estados Unidos do século XXI?”. Ele relembrou que Charlie Kirk havia destacado pouco antes de sua morte: “Se você não der aos jovens perspectivas, se não lhes der um senso de pertencimento, se não lhes der uma noção do sonho americano e de possibilidades no futuro, eles vão se tornar socialistas”. Vance continuou:
Então, penso que, a menos que a gente siga esse caminho de permitir que os jovens estadunidenses tenham algo próprio, o socialismo será o resultado inevitável. Se eu acho isso bom? Não. Mas eu realmente me preocupo […] se – cara, se a gente não resolver isso e, eu diria, se a gente não voltar a uma compreensão mais cristã da economia, o socialismo será uma alternativa. É assim que as coisas ficarão.
JOE ROGAN: Bem, as pessoas não têm nada.
D. VANCE: Exatamente. E, em alguns sentidos, Joe, o jogo está comprado
Vance se expressou em termos mais moderados do que outros membros do governo Trump preocupados com a popularidade do socialismo. Em uma linguagem muito mais sombria e vingativa, o Secretário de Estado Marco Rubio realizou uma conferência sobre “a violência de esquerda” em Washington D.C., na quinta-feira, que contou com a participação de representantes de cerca de sessenta países. Rubio chamou a esquerda de “um único mal enraizado em um ressentimento profundo em relação à civilização”. No mesmo encontro, o vice-chefe de gabinete de Trump, Stephen Miller, chamou a esquerda de “fundamentalmente motivada por inveja, ódio e ciúme” e o governo anunciou restrições de visto para membros de alguns grupos políticos de esquerda, evocando um amplo conceito alarmante de “sabotagem econômica”.
De modo parecido, Trump tem falado em termos repressivos, recentemente repostando um vídeo do apresentador de extrema direita Michael Savage [3], no qual argumenta (em letras maiúsculas, como muitas das postagens de Trump): “O SOCIALISMO DEMOCRÁTICO DEVE SER CRIMINALIZADO, SEUS LÍDERES DEPORTADOS”, incluindo o prefeito da cidade de Nova York Zohran Mamdani (que Trump chamou no ano passado de “meu pequeno prefeito comunista”, mas também uma “pessoa muito racional, um homem que realmente quer ver Nova York ser grande novamente”). Trump também tem falado ultimamente de forma desconexa sobre o “comunismo”, que não tem sido parte da política dominante dos Estados Unidos, mas é, na imaginação ansiosa da elite de direita, frequentemente usado como sinônimo de qualquer oposição à oligarquia e ao capitalismo desenfreado ao estilo estadunidense.
Essas difamações estão surgindo, não surpreendentemente, no momento em que o “socialismo democrático” vem crescendo, o que torna um pouco difícil para a direita lançar uma nova “onda da ameaça vermelha”. Bernie Sanders é uma das figuras mais populares na política estadunidense; o mesmo vale para Zohran Mamdani. No dia 4 de julho, no Monte Rushmore, com as vitórias do DSA em Nova York, no Colorado e em outros lugares ainda frescas na memória, Trump aceitou o desafio imitando Joe McCarthy.
“A América nunca será um país comunista. Isso não acontecerá”, Trump prometeu:
É como um câncer. É preciso arrancá-lo […]. Nossos guerreiros não lutaram contra o comunismo em campos de batalha em todo o mundo apenas para que essa ameaça surgisse nos Estados Unidos. Não vamos deixar isso acontecer.
Isso é uma retórica própria da direita. Entretanto, existem alguns detalhes interessantes. Em meio à demonização do socialismo, Trump às vezes quase soa melancólico quanto à esquerda, como se quisesse fazer parte desse time tão intrigante em ascensão. “Eu seria o maior comunista da história”, ele refletiu recentemente. “Estaria lá no topo com Lênin”.
Como se estivesse tentando se convencer a resistir àquela tentação iminente, ele acrescentou que o atual “comunismo” era um dos piores perigos que este país já enfrentou. Quando você “se torna comunista”, ele refletiu, “você nunca volta atrás. Você morre na miséria. Você passa por uma morte horrível.Você morre na miséria e isso se torna muito ruim e repugnante”.
De certo modo, Trump está voltando ao Macarthismo porque é um homem idoso perdendo seu domínio sobre o mundo e isto é um terreno familiar para ele. O advogado de McCarthy, Roy Cohn, foi seu mentor. Ele se sente em casa com o Medo Vermelho. Mas a recente obsessão de Trump pelo comunismo não é apenas o delírio de um homem que sente o zeitgeist [espírito da época], junto com sua sanidade, escapando de suas mãos, nem é simples nostalgia ou um recurso desesperado a algo que já funcionou para a direita. Assim como Vance, Rubio e todos os outros membros da direita que estão enlouquecendo com o DSA, Trump também está preocupado – e com razão – com um adversário potencialmente formidável.
As provas estão por toda parte. Mamdani venceu a disputa pela prefeitura de Nova York ano passado; em seguida, os socialistas conquistaram uma vitória quase total nas disputas para o Congresso e para as legislaturas estaduais em Nova York. Francesca Hong vem apresentando um ótimo desempenho na disputa para governador de Wisconsin e Melat Kiros, do Colorado, em breve assumirá uma cadeira no Congresso; os progressistas que não se identificam como socialistas, mas compartilham muitos dos pontos básicos de sua agenda – como Abdul El-Sayed, candidato ao senado por Michigan -, estão conseguindo bons resultados em suas disputas.
E como Vance reconheceu, a agenda política do movimento socialista do século XXI, incluindo tudo, desde moradia acessível até salários mais altos e o Medicare para Todos, é extremamente popular. O governo Trump sabe disso melhor que qualquer um, porque o próprio Trump conduziu uma campanha em 2024 que enfatizou questões da classe trabalhadora, como o alto custo de vida. Agora, Trump e o MAGA enfrentam um movimento socialista realmente empenhado em aprovar leis para facilitar a vida da classe trabalhadora – e isso os deixa preocupados.
O DSA está claramente morando de graça – ou, pelo menos, com um congelamento de aluguel [6], se preferirem – nas mentes de Trump e de seus aliados próximos. Os comentários dele têm sido estranhos e, às vezes, até contraditórios, mas refletem o medo da direita de que a esquerda esteja ganhando forças e construindo um movimento, e que tenha soluções para problemas que nem a direita nem o centro conseguem resolver. Pelo menos nesses pontos, Trump e aliados estão corretos.
Traduzido de https://jacobin.com/2026/07/socialism-mamdani-trump-vance-rubio, por Paulo Duque, da equipe do Esquerda Online

