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Tebet diz que Michelle sofre na pele a própria ideologia – 17/07/2026 – Política


Centro-direita na economia e centro-esquerda na pauta de costumes é como Simone Tebet, 56, se define dentro do espectro político. Para ela, a defesa das minorias –e a maior participação das mulheres na política– define a democracia e não pode ser seletiva, como faz, em sua opinião, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).

“Acho que ela sofreu na própria pele o que pensa a ideologia que ela representa, que é a da extrema direita, que não poupa nenhuma mulher”, disse Tebet à Folha, referindo-se a brigas recentes de Michelle com os enteados, em especial o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL).

Pré-candidata ao Senado pelo PSB em São Paulo, Tebet disputará, pela primeira vez, eleições fora do MDB e de Mato Grosso do Sul, onde nasceu. De oposição ao PT do presidente Lula, virou uma de suas principais aliadas após não se eleger presidente em 2022 e se unir à chapa petista para derrotar Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno.

Foi ministra do Planejamento de Lula até abril deste ano, quando deixou o cargo para concorrer ao Senado paulista a pedido do próprio presidente. A troca de domicílio eleitoral foi justificada porque, há quatro anos, ela recebeu em São Paulo mais de um terço de todos os seus votos à Presidência.

No Datafolha mais recente, Tebet aparece tecnicamente empatada com Marina Silva –a pessebista com 16%, diante de 18% da companheira de chapa. Ela também empata, dentro da margem de erro de dois pontos, com Ricardo Salles (13%), do Novo, seguido por André do Prado (11%), do PL, e Guilherme Derrite (10%), do PP.

Como se sente em relação aos ataques que tem recebido por não ser de São Paulo, como o do governador Tarcísio de Freitas?

Entre as autoridades, talvez [Tarcísio] seja o único que não tenha legitimidade para tratar do tema. Qualquer eleitor tem o direito de questionar, mas ele caiu de paraquedas, porque nem residência tinha e teve que pedir emprestado um endereço para ser candidato. Sempre me senti muito abraçada por São Paulo, porque nasci na divisa, meu marido é de Birigui [cidade do interior, a 510 km da capital], fiz mestrado aqui, minhas filhas fizeram faculdade e estão aqui há dez anos.

Como tem sido a adaptação à política de São Paulo?

A sede da minha campanha presidencial foi aqui fiquei muito tempo em São Paulo. São 645 municípios, muitas regiões metropolitanas, mas eu sou do interior, então sei como funciona [o interior paulista], principalmente no noroeste paulista, que é muito semelhante ao interior de Mato Grosso do Sul.

Por quê?

Porque vive do agronegócio e os problemas locais têm muito mais peso, relevância e importância do que questões nacionais. O noroeste de São Paulo é muito parecido no plantio, da soja e na pecuária. Há também a questão da imigração de japoneses e árabes, que é muito forte. O jeito de fazer política é diferente, mas para mim não é novidade porque em 2022 eu já experimentei essa realidade eleitoral.

A sra. se vê disputando votos com Ricardo Salles?

Defendo a sustentabilidade dentro do agronegócio, a reforma agrária em terras devolutas, em terras improdutivas, e consequentemente a agricultura familiar. Nós, do médio ou do grande agro, alimentamos muito pouco a população brasileira. Não é demérito, porque contribuímos com a balança comercial, mais voltados para a exportação, com exceção da carne. Mas, quando falamos de hortifrúti, arroz e feijão, itens da cesta básica, a maioria vem da agricultura familiar. Não são excludentes. A gente fica achando que o Brasil está dividido, mas essa divisão é eleitoral. No dia a dia, essa polarização está diminuindo.

Se a polarização está diminuindo, por que o agro não gosta da esquerda?

O problema do agro não é a falta de crédito ou financiamento, por mais que a gente sempre pouco. É uma lembrança do passado, que é legítima, das invasões do MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] em áreas produtivas, das destruições de cafezais e de laranjais aqui no interior de São Paulo. Mas isso ficou no passado, porque o movimento de luta por terra evoluiu com o diálogo, muito por insistência do próprio presidente. A extrema direita utiliza isso sempre para reavivar a memória do agro. A sensação que eu tenho é que interessa para alguns setores esse conflito, tanto da esquerda quanto da direita. Por isso que sempre me considerei de centro.

O presidente Lula disse não ser esquerdista e que sempre teve maior tendência ao centro. Concorda?

O Lula sindicalista era um homem de esquerda. Quando assumiu o poder, o Congresso era de centro e depois pendeu para a direita. Com o pragmatismo dele, entendeu que numa democracia ele governa para maioria e a maioria brasileira não é de esquerda.

A sra. se sente prejudicada quando tentam colocá-la em alguma caixinha, seja de esquerda ou de direita?

Não me incomoda mais, porque a vida inteira tentaram me colocar numa caixinha como mulher. Eu, uma menina do interior, de um estado que não tem tradição política, viro a primeira prefeita da minha cidade [Três Lagoas], fui a primeira vice-governadora e depois no Senado tive várias primeiras vezes: primeira líder da bancada feminina, primeira presidente da comissão mais importante, a CCJ [Comissão de Constituição e Justiça], primeira a disputar a presidência do Senado. A minha vida política, como a vida de qualquer mulher profissional, é sempre enquadrada em caixinhas. Mas não sou obrigada a escolher. Sou centro-direita na economia e centro-esquerda na pauta de costumes.

É cansativo ser tantas vezes a primeira?

Eu sempre tive voz, mas não era ouvida. Só comecei a ser ouvida quando, na segunda metade do meu mandato no Senado, fui a primeira mulher presidente da CCJ, então eu pautava os projetos nacionais. Se estou com 20 e poucos anos de política, levei mais de 15 anos para ser ouvida.

Acha contraditória a atuação da Michelle Bolsonaro, que defende mais mulheres na política, mas com marido e filhos como prioridade?

Eu acho que ela sofreu na própria pele o que pensa a ideologia que ela representa, que é a da extrema direita, que não poupa nenhuma mulher. A mulher, para eles, tem que ficar em casa submissa, sem liberdade de escolha. Sou favorável a uma mulher ser dona de casa se for uma opção dela. Eu me solidarizo com a Michelle, que deve ter sofrido muita misoginia, um termo que ela nem gosta de usar, muita violência política, para ela se rebelar. Mas não pode ser seletiva na sua fala: se é vítima, tem que falar e proteger todas as vítimas.

Como enxerga declarações machistas dadas pelo presidente Lula?

Eu acho que é geracional. A Janja já o cobra muito e ele precisa ser cobrado pela imprensa, mas não diminui em nada toda a dedicação que ele tem com as mulheres brasileiras e com a família de modo geral. Ele entrega 95% das chaves da casa própria para uma mulher. O Bolsa Família, em 90% dos casos, vai para a mão de uma mulher. Quando ele faz um PAC para construção de escolas e de creches, ele está pensando na mãe.

Há espaço para a renovação na política?

A gente tem muitos talentos e me impressiona positivamente a capacidade dessa nova geração de políticos conseguir se comunicar com a sociedade. Cabe a nós fazer o que a geração anterior não fez, que é preparar, e o presidente Lula tem que fazer isso. Sou suspeita para mencionar, mas vejo o João Campos e a Tabata Amaral, que são do meu partido como exemplos. A gente até tem jovens [na política], mas não no quantitativo.

Também acho que falta para essa geração uma bandeira. Cada geração tem uma causa: eu, por exemplo, fui da geração das Diretas Já. Essa rebeldia da juventude nasce na dor, na indignação, e essa indignação está demorando para surgir. Eu me ressinto da falta de renovação, do quão distante a nossa juventude está da política, dos movimentos sociais e partidários.

A sra. pensa em concorrer a outro cargo em 2030, incluindo a Presidência?

O que não me vejo é fora da política. Sou hoje uma das mulheres do nosso campo que mais chegou longe. Isso me traz responsabilidade num momento perigoso, em que temos o risco de a extrema direita voltar [a comandar o país]. Tenho que ser uma voz, agregar valores, tentar ajudar a unir esse país no caminho do centro. Não tenho o direito de parar na política, independentemente de concorrer ou não a um cargo. Em 2030, estarei na política.

RAIO-X | Simone Tebet, 56

Formada em direito pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), foi professora universitária e construiu carreira política em Mato Grosso do Sul, seu estado natal. Foi deputada estadual (2003-2004), prefeita de Três Lagoas (2005-2010), vice-governadora (2011 a 2014) e senadora (2015 a 2023). Candidatou-se à Presidência da República em 2022 e foi ministra do Planejamento e Orçamento (2023-2026). É pré-candidata ao Senado pelo PSB em São Paulo nestas eleições.



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