Os ataques do presidente da Argentina, Javier Milei, a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), no último sábado (25), repercutiram na oposição do país vizinho, que vê irresponsabilidade com um dos maiores parceiros comerciais da nação.
Durante o evento em São Paulo, o argentino chamou Alexandre de Moraes, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), de “lixo careca” por não autorizar que ele visitasse o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso por tentativa de golpe de Estado, e chamou Lula de ladrão e delinquente.
O discurso marca o fim da trégua entre os dois presidentes —Milei tem um histórico de ofensas ao petista desde a sua vitoriosa campanha presidencial, em 2023, mas, nos últimos dois anos, a relação entre os dois estava apenas distante em prol da importância dos vínculos bilaterais entre as nações.
Agora, até mesmo a convivência protocolar está abalada. Após os comentários, o Itamaraty convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, e o representante de Brasília em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestar esclarecimentos. Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de palhaço ao rebater críticas à economia brasileira.
No país vizinho, a oposição criticou em peso os ataques do presidente.
O governador da província de Buenos Aires e ex-ministro da Economia de Cristina Kirchner, Axel Kicillof, disse no domingo (26) ter acompanhado o evento com “vergonha alheia”.
“Hoje entrei em contato com Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil […] para transmitir que Milei não representa os sentimentos do povo argentino”, afirmou em rede social. “O Brasil é nosso principal parceiro comercial. Com essas provocações, Milei está colocando em risco investimentos, exportações, milhares de empregos e os interesses da Argentina.”
O ex-presidente Alberto Fernández, antecessor de Milei e aliado de Lula, também se pronunciou. “Milei foi ao Brasil gritar como um louco exigindo ver um líder golpista preso”, afirmou também em rede social. “Insultar o presidente de uma nação irmã e nosso principal parceiro comercial é imperdoável.”
As críticas chegaram até a chamada oposição moderada —a que não faz parte da coalizão do partido governista, mas que pode votar com o presidente, especialmente em temas econômicos. O deputado Miguel Angel Pichetto foi o representante desse grupo.
“Irresponsabilidade total”, afirmou o candidato à Vice-Presidência de Mauricio Macri em sua corrida frustrada à reeleição em 2019. “O tom, o conteúdo do seu discurso e o nível de agressividade contra o presidente Lula são realmente graves. Isso enfraquece seriamente a integração da Argentina com o Brasil e com o Mercosul“, afirmou, também em rede social.
O rechaço, porém, parou aí. Aliados do presidente, como era de se esperar, não se pronunciaram sobre os ataques, e o chefe de gabinete de Milei, Diego Santilli, pediu que “não se faça tanto drama”.
“Eles vieram aqui para fazer campanha, disseram coisas terríveis sobre o presidente e puderam fazer o que quiseram”, afirmou ao LN+, canal do jornal La Nación, minimizando o impacto das declarações do líder devido à “relação de longa data entre empresas dos dois países, que se mantém”.
Santilli não esclareceu exatamente a que se referia, mas, em 2023, Milei acusou Lula de financiar seu adversário, o peronista Sergio Massa, sem apresentar provas. Naquele ano, um grupo de publicitários ligados ao PT reforçou a equipe de campanha de Massa, mas havia estrategistas de várias outras partes do mundo.
Neste domingo, Milei voltou a fazer acusações sem provas ao comentar a visita ao Brasil. “Vocês sabem quem investiu mais dinheiro nessa campanha anti-Argentina? O governo brasileiro”, afirmou sobre os ataques que o país viveu durante a Copa do Mundo. “Vinte e cinco por cento dos recursos vieram do governo brasileiro. E depois eles vêm falar em interferência”, continuou, durante entrevista a uma rádio.

