InícioBrasilJulho das pretas: onde estamos nós, mulheres negras maranhenses?

Julho das pretas: onde estamos nós, mulheres negras maranhenses?


As mulheres negras são o maior minoria do Brasil. Sozinhas, representamos quase 30% da população e somos a maior parte do contingente feminino no país. Apesar disso, estamos concentradas na base da pirâmide social, figurando entre os piores indicadores. Somos, também, as maiores vítimas de feminicídio. Entre 2021 e 2024, 62,6% das mulheres mortas dessa forma eram negras, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Além disso, os índices de feminicídio vêm aumentando a cada ano, tendo praticamente triplicado de 2020 para 2025.

No Maranhão, as pessoas negras (pretas e pardas) representam cerca de 80,9% da população estadual, de acordo com dados do DIEESE de 2025. Mulheres pretas e pardas formam o maior grupo demográfico local. Contudo, dados do IBGE revelam altos índices de desigualdade social, evidenciando que essas mulheres continuam enfrentando menores rendimentos médios e maiores taxas de desocupação, mesmo possuindo maior nível de escolaridade.

Os dados estaduais detalhados pelo Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (IMESC), com base no Censo Demográfico do IBGE, mostram que:

1. A população negra maranhense é composta por cerca de 6,7 milhões de pessoas, o que confere ao Maranhão uma das maiores proporções de negros do país.
2. A capital, São Luís, concentra o maior número absoluto dessa população (mais de 760 mil pessoas), enquanto Serrano do Maranhão registra a maior proporção do estado, atingindo quase 97% de moradores negros.

O histórico do Julho das Pretas no Maranhão perpassa pela articulação de vários coletivos, entidades e organizações, como o Grupo de Mulheres Negras Mãe Andressa e o Comitê Impulsor Estadual. Juntos, esses grupos promovem marchas, feiras de afroempreendedoras e debates voltados à reparação histórica, ao enfrentamento ao racismo e ao sexismo, e à valorização da ancestralidade nos territórios maranhenses.

Em referência ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela, o movimento de mulheres negras se organiza em diferentes cidades para ocupar as ruas e as redes sociais. No Maranhão não será diferente. Teremos diversas atividades, incluindo rodas de conversa, debates, diálogos e a já esperada Marcha do Julho das Pretas.

A programação conta com os seguintes destaques:

• Dias 23 (às 16h30) e 24/07/26 (às 16h): O Centro de Referência da Mulher Negra Ana Silvia Cantanhede receberá duas atividades distintas organizadas por entidades do movimento negro estadual.
• Dia 24/07/26: Ocorrerá a 1ª Marcha dos Manguezais Amazônicos Maranhenses, com concentração às 15h30 na Praça Deodoro, no Centro.
• Dia 26/07/26 (das 09h às 12h): O Sindoméstico realizará uma roda de diálogo em sua sede, localizada na Casa do Trabalhador.

Nós, da SEMEAR-MA, estamos preparando duas ações: o lançamento do livro de teses do Seminário “ANTIRRACISMO E LUTA DE CLASSES”, em parceria com o MNU — que contará com a participação de Sônia Lúcio e de diversas entidades convidadas do movimento negro estadual —, e uma intervenção voltada para os nossos perfis digitais, reforçando a importância das redes sociais para a mobilização e visibilidade da nossa causa.

Territorialidade, insurgência e pluralidade: as mulheridades negras LBTs do Maranhão somando na luta

A construção de um projeto político verdadeiramente emancipatório para o Julho das Pretas exige que não tangenciemos a potência e a urgência das mulheridades negras LGBT+ maranhenses. No Maranhão, a nossa existência é atravessada por uma tripla fronteira de opressões, onde o racismo estrutural, o patriarcado e a cisheteronormatividade se somam às profundas desigualdades socioeconômicas e regionais.

No entanto, longe de se colocar apenas no lugar da vulnerabilidade, são as mulheres lésbicas, bissexuais, travestis e trans pretas — vindas das periferias urbanas, das comunidades quilombolas e do interior — que historicamente vêm tecendo redes de cuidado, solidariedade e resistência que mantêm as nossas comunidades de pé.

A lesbofobia e a transfobia no Maranhão somam-se ao projeto da necropolítica, que sabe muito bem como escolher o seu alvo: mulheres bissexuais, lésbicas, trans e travestis em sua grande maioria negras e periféricas, como evidenciam os casos de extrema violência contra essas mulheridades no estado.

Do Tambor de Crioula aos movimentos de base, a nossa identidade é ancestral, mas o nosso debate político é do presente e aponta para o futuro. Organizar o movimento a partir das nossas vivências significa entender que não haverá justiça social ou democracia plena enquanto nossos corpos continuarem hipervisibilizados na violência e invisibilizados nos espaços de decisão e poder.

Exigimos o direito à vida, à saúde integral (respeitando as especificidades de gênero e orientação sexual), ao trabalho digno e à memória. Que este Julho das Pretas no Maranhão seja um marco para consolidar estas vozes e lideranças: a revolução é preta, sapatão, trans, bissexual e maranhense. Nada mais será decidido sem nós.

Se, como nos ensina Angela Davis, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se move com ela”, que caminhemos juntas e juntes, sendo mais uma vez a ponta de lança dos movimentos de resistência e transformação. Ubuntu!



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