A bancada do PT na Câmara aposta em criar um ambiente de pressão social para tentar garantir a aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara e no Senado. O tema é usado para engajar a militância de esquerda neste 1º de maio, Dia do Trabalhador, em meio às turbulências após o Congresso impor duras derrotas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT): a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF (Supremo Tribunal Federal) e a derrubada do veto presidencial ao projeto de lei da dosimetria.
Diante do cenário, o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (PT), defende uma mudança de tom para emplacar o discurso de “Congresso inimigo do povo”. A avaliação do parlamentar é de que a campanha, incentivada por atores do governo no passado para pressionar o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem potencial para exercer o mesmo papel contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
“Alcolumbre não tem como segurar. Pela opinião pública. Inclusive, na conversa que nós tivemos com o Hugo, ele comentou que já está dialogando com Davi Alcolumbre para que, antes do recesso do Senado, ele entregue a votação no Senado da redução da jornada”, afirma Uczai.
Em entrevista à CNN, o líder do partido de Lula também avalia que o Senado usou Messias para mandar recados a ministros do Supremo e que Alcolumbre se aproxima da oposição mirando se manter no comando da Casa em 2027 quando, independentemente do resultado das eleições presidenciais, a tendência é por uma composição mais alinhada à direita. A ausência do presidente Lula nos atos de 1º de maio também foi avaliada pelo deputado.
Veja a entrevista:
CNN: O mote do fim da escala 6×1 ajuda os governistas a energizar de novo o 1º de maio?
Uczai: Existe uma potência que a gente ainda está explorando pouco e dá para explorar muito mais, que é a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 7.350. Também o aumento real do salário mínimo, do pleno emprego e o controle da inflação. Mas o principal para o 1º de maio é a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas [semanais], com dois dias para viver e cinco dias para trabalhar, sem redução de salário. Esse é um ponto que junta e unifica todas as centrais sindicais para criar esse ambiente para, até o final de maio, aprovar na Câmara.
CNN: Se aprovada pela Câmara, a proposta segue para o Senado. Com as derrotas impostas por Alcolumbre, a base governista tem confiança em aprovar o texto?
Uczai: A derrota não contamina a opinião pública sobre uma matéria tão importante em um período pré-eleitoral. É uma coisa muito específica. Eles não derrotaram o Jorge Messias para derrotá-lo. Derrotaram o Jorge Messias para fragilizar o Supremo. Eles derrotaram o Jorge Messias para dar um indicativo de que o próprio presidente Davi Alcolumbre pode construir acordos ali dentro, espúrios ou não, para fazer uma maioria.
CNN: Como a derrubada do veto da dosimetria se encaixa nesse contexto?
Uczai: Os interesses subjacentes a essa derrota [na votação de Messias] podem estar ligados ao que aconteceu na dosimetria. Os bolsonaristas apoiaram para ter a derrubada do veto, e ele entregou.
CNN: Mas a oposição já tinha como certa a derrubada do veto…
Uczai: Mas o Davi poderia não ter colocado na pauta. Quando colocou, lá atrás, já caminhava para fazer esse diálogo com esse grupo. Junta-se também esse grupo e várias lideranças com o Banco Master. Se começar a investigar tudo isso numa CPMI aqui dentro do Congresso, efetivamente começa a escancarar. Tinha muita gente interessada em que essa CPMI não saísse. Esse foi um grande acordo para não avançar nas investigações, para relaxar e relativizar a tentativa de golpe à democracia e, ao mesmo tempo, mostrar a construção que o Davi está tentando fazer, que é se reeleger presidente do Senado.
CNN: Tem muita gente defendendo que haja um rompimento do presidente Lula com o Davi Alcolumbre. Isso pode impactar a última chance de se ter uma conquista eleitoral do governo no Congresso, que seria o fim da jornada 6×1?
Uczai: Acho que o fim da jornada 6×1 Davi Alcolumbre não tem como segurar. Pela opinião pública. Inclusive, na conversa que nós tivemos com o Hugo, ele comentou que já está dialogando com Davi Alcolumbre para que, antes do recesso do Senado, ele entregue a votação no Senado da redução da jornada.
CNN: Hugo Motta pode ajudar a distensionar a relação com o Senado
Uczai: Com certeza. Pode e deverá, porque está fazendo esse diálogo para a gente votar aqui e também ter a votação no Senado para concluir esse processo legislativo.
CNN: Considerando o contexto do 1º de maio, o governo não está fazendo atos próprios, e o presidente Lula não estará na rua. Vocês temem esvaziamento? Há uma desconexão com os movimentos sociais?
Uczai: Ocorreu uma profunda derrota do movimento sindical e da classe trabalhadora com a reforma trabalhista. Foram vários direitos suprimidos e retirou-se, em grande parte, o subsídio que financiava a luta sindical, o que fragilizou o movimento. Lula tem sinergia com a classe trabalhadora e com as políticas que a atingem. Esse ponto da jornada vai juntar governo e movimento sindical.
CNN: Há alguma outra pauta que o governo pretende trabalhar nesse 1º de maio?
Uczai: Hoje nós retomamos o Congresso como inimigo do povo, como inimigo da democracia e como aliado de grandes negócios e grandes acordos; o acordão de uma organização criminosa, que tentou dar golpe contra a democracia, que se juntou com uma outra organização criminosa, com seus interesses, que é não investigar o Banco Master e aqueles diretamente envolvidos do andar de cima.
CNN: Isso não afeta a relação com o Hugo Motta, que repudia o mote “Congresso inimigo do povo”?
Uczai: É um custo. É um preço. Eu acho que ele tem conduzido de forma republicana. Mas, após o que o Congresso fez, nós precisamos fazer o enfrentamento.
CNN: O setor produtivo vê a discussão do fim da escala 6×1 como eleitoreira. A defesa é por discutir o tema após a eleição. O que os governistas acham disso?
Uczai: Por que depois das eleições, se nós podemos ter ampla maioria e a direita e a esquerda vão votar a favor? Porque baixa a temperatura e a pressão da opinião pública se esfacela. É justamente no período pré-eleitoral que a gente avança nos direitos. É o momento em que os deputados vão sofrer escrutínio popular e não podem fazer besteira.

