Era 2 de abril de 2026, data que entrou para minha história de vida: fui empossada como oficial de chancelaria do Itamaraty. Me preparei por uma década até chegar lá, tempo em que estudei a fundo relações internacionais, em Minas Gerais. Minha alegria, porém, durou pouco. Não passou um mês, e me exoneraram do cargo. A razão: eu não estava apta a assumir uma vaga que havia obtido via sistema de cotas. A chamada banca de heteroidentificação racial, que avalia se a pessoa reúne mesmo características negras, seja de pretos, seja de pardos, havia concluído que eu não me encaixava já no início do processo, em 2024. Na ocasião, o resultado do concurso nem havia saído. A banca alegava que, ao contrário do que eu declarava, não era parda. A partir daí resolvi encarar uma desgastante batalha judicial. Venci e, quando o juiz decidiu a meu favor, achava que estava tudo resolvido, mas era só o começo de uma luta que durou dois intermináveis anos. Apenas agora pude comemorar de verdade — serei, enfim, nomeada ao posto que conquistei e com o qual tanto sonhei.
Sou de uma família humilde de professores. Meus pais nunca puderam pagar meus estudos. Tudo o que consegui foi por meio de bolsas e oportunidades que me foram oferecidas, de tanto que tentei. Quando entrei na universidade, vi no Itamaraty uma chance de crescer e ainda ajudar minha família. Foram onze anos entre o início da graduação até a posse, aquela que acabou sendo provisória. Tirei ótimas notas no concurso e estava para ser chamada quando fui avaliada pela banca, em Brasília. Enquanto candidatos de pele preta apenas informavam nome e número de inscrição, os pardos como eu eram submetidos a perguntas adicionais sobre a identidade racial. Respondi a todas, embora me sentisse meio desconfortável. Pareciam duvidar de algo que, para mim, me define: sou e sempre serei uma mulher negra, filha de pais negros. Mas, para os integrantes da banca, meus traços eram finos; meu cabelo, liso; e minha pele, clara. E, por isso, me reprovaram.
Fiquei abaladíssima. Embora respeite o trabalho das bancas de heteroidentificação, por sua função de servir como barreira contra aqueles evidentes casos de gente mal-intencionada que mente para ter acesso às cotas, acho que esse sistema não tem o direito de determinar a identidade de alguém com minhas características que se autodeclara negra. Me bateu uma crise. Não foi fácil ganhar autoestima, justamente por ser negra. Passei a vida inteira tendo que lidar com o racismo. Ao saber da reprovação, precisei de todo o apoio da família e dos amigos para, enfim, entender que aquele lugar no Itamaraty era meu por suor e mérito. Tinha que brigar por ele. Foi então que procurei a Justiça em março de 2024. O objetivo não era apenas garantir a vaga, mas também reafirmar minha própria identidade.
Quando, já empossada, me tiraram do cargo, senti, além do baque pela injustiça, uma profunda angústia. Havia ainda a questão prática — deixei o emprego que tinha antes em uma ONG e estava sem nenhuma renda. No fim, acabei fazendo um acordo com a Advocacia-Geral da União (AGU), que reconheceu haver problemas com as bancas de heteroidentificação e disse que está se mexendo para impedir que novos casos como o meu voltem a acontecer. Na própria sede da AGU, na presença do advogado-geral da União, Jorge Messias, assinei o documento que garante meu retorno ao Itamaraty. Que isso contribua para que histórias assim não se repitam. Meu sentimento agora é sobretudo de alívio. Virei uma página. Não preciso mais provar para ninguém quem eu sou.
Flávia Medeiros em depoimento a Flávio Monteiro
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001

