“Na luta de classes, todas as armas são boas: pedras, noite e poemas.”
Leminski
São dias de festas, são dias de glória. Passamos os últimos anos sobrevivendo, lutando, mas perdendo. Aceitando no máximo um “menos pior”. Verdade que tivemos um governo de esquerda mas, mesmo assim, um governo que o mínimo que fizesse tinha que se chocar com congresso inimigo do povo. Vivemos anos de defensiva.
Muitos dos nossos desistiram no meio do caminho. Alguns se acomodaram, outros se venderam e muitos se encheram. A luta de classes é uma maratona em que a classe trabalhadora quase sempre está subindo uma ladeira e, nos últimos anos, nossos adversários parecem muito maiores que nós. Muitos desistiram. Eu também desisti.
Mas acordei com a notícia. Vencemos e que vitória. Não foi o “menos pior”, não foi um “pelo menos” ou “conseguimos barrar por enquanto”. O que tivemos foi um “para início de conversa”. O sentimento agora é: podemos vencer. Mas isso alimenta uma pergunta: como conseguimos vencer?
Existe um debate nas redes sobre quem seria o responsável pela vitória. Será que foi da Bixa e da Travesti que pautaram isso? Do governo que fez os acordos necessários para poder passar? Do PT que tem isso como pauta desde a constituinte de 1988? Ou dos sindicatos que colocaram gente na rua?
Longe de mim querer ser o dono da verdade (mentira, quero sim), mas acho que podemos chegar em um lugar interessante nessa polêmica e extrair uma lição.
A luta pela redução da jornada de trabalho é pauta da esquerda mundial desde antes de existir a esquerda mundial. De fato, desde que a primeira fábrica moderna foi criada, deve existido lá um jovem trabalhador reclamando de trabalhar 12 horas por dia.
A luta pela redução da jornada de trabalho é pauta da esquerda mundial desde antes de existir a esquerda mundial. De fato, desde que a primeira fábrica moderna foi criada, deve existido lá um jovem trabalhador reclamando de trabalhar 12 horas por dia. Então, não considero justo qualquer partido de esquerda apresentar-se como o “defensor original da pauta antes de ser modinha”. Absolutamente qualquer partido de esquerda tem isso como parte de seu programa, porém existe sempre o debate de quando e como pautar algo.
Sendo justo, a campanha presidencial do PCB em 2022 tentou trazer essa pauta como centro político. Porém, por mais que meus amigos do partidão possam ficar com raiva de mim, o fato é que não pegou. As massas não abraçaram a campanha e podemos escrever extensos documentos tentando explicar por que isso não aconteceu. Entre os muitos aspectos que queria ressaltar, existem dois que acho que seriam interessantes de pensar: Primeiro, o fator conjuntura, afinal estavámos ainda vivendo os momentos finais do governo Bolsonaro e nada garantia que ele não iria continuar no poder. Era um momento para darmos um passo adiante? Os camaradas do PCB achavam que sim, mas creio que a realidade provou que não. Claro, sempre podem argumentar “ah mas se o resto da esquerda tivesse aderido a minha campanha ela teria sido vitoriosa”. Talvez, mas a verdade é que a campanha não teve força para obrigar o resto da esquerda a abraçá-la.
O segundo motivo para não ter pegado acredito que seja a escolha da palavra de ordem. Há muito tempo aprendi a não menosprezar o aspecto estético, ou seja, como as idéias são percebidas pelas massas. Os camaradas descobriram de forma bem dura que dizer “em defesa da redução da jornada” é algo essencialmente correto e muito pouco atrativo.
Rick Azevêdo era um balconista de farmácia. Ele não aguentava mais a jornada exaustiva a qual estava submetido. Ele gravou um vídeo no tik tok e o vídeo viralizou. Ele criou o movimento “vida além do trabalho” e achou a palavra-de-ordem que tocava o coração das pessoas. Era o fim da escala 6×1 e as pessoas mais que entendiam isso. As pessoas queriam isso e, principalmente, as pessoas começaram a acreditar que conseguiriam isso.
Se Rick com toda sua coragem tivesse continuado sozinho entregando adesivos e panfletos do VAT, fazendo vídeos no Tik Tok, talvez conseguisse muito seguidores, mas não teria ido além disso. Ele se organizou em um partido, se candidatou por ele e levou essa pauta como sua pauta de campanha. Ele entrou na política institucional, lá encontrou Erika Hilton e, com ela, levou o debate que já estava nas redes para o parlamento. Erika bancou a pauta. Quando todos acreditavam ser impossível, ela foi lá e fez.
Se Erika, com toda sua ousadia, tivesse apenas gritado sozinha seria um grande feito para garantir uma reeleição, mas não mais que isso. Foi preciso ir lá e ganhar o governo e seu partido para a convencer quem tem mais força que ela no congresso a acreditar que era possível ganhar e ela conseguiu. E o PT tomou essa pauta como sua.
Se o PT, com toda a sua força, tivesse apenas se fechado nos acordos de gabinete, fazendo acordos para ver se conseguia avançar algo, teríamos um “pelo menos”. Mas o PT moveu suas bases, botou Lula na TV falando no primeiro de maio, moveu sindicatos e centrais e colocou povo na rua.
Rick, Erika e o PSOL foram essenciais. O Governo e o PT foram fundamentais. A mobilização nas redes e os influencers importantíssimos. E o povo na rua com sindicatos são o básico. E essa é a lição: a vitória é da unidade da classe trabalhadora, com todas suas formas de lutar.
E, assim, foi nas ruas que começou essa articulação, às ruas foi para chegar a vitória. Se qualquer um desses fatores tivessem sido diferentes, não estaríamos onde estamos agora. Rick, Erika e o PSOL foram essenciais. O Governo e o PT foram fundamentais. A mobilização nas redes e os influencers importantíssimos. E o povo na rua com sindicatos são o básico. E essa é a lição: a vitória é da unidade da classe trabalhadora, com todas suas formas de lutar.
Importante refletir sobre essa lição, porque a luta não acabou, ela continua. Ela sempre continua e devemos aproveitar essa vitória não para irmos para voltarmos para defesa, mas para organizar nosso ataque.

