Toda eleição presidencial tem uma fase de aquecimento, em que os candidatos se preparam para a campanha. A revelação dos laços de Flávio Bolsonaro (PL) com o dono do Banco Master e a decisão de Lula (PT) de sacar um arsenal para evitar uma derrota na disputa indicam que essa etapa acabou na última semana.
A nova pesquisa do Datafolha, divulgada neste sábado (16), captou o instante em que os dois principais pré-candidatos ao Palácio do Planalto começam a enfrentar os primeiros testes reais desta eleição.
Os números mostram sinais preliminares de que as intenções de voto em Flávio Bolsonaro pararam de subir, depois da espichada inicial produzida principalmente pelo reconhecimento de seu sobrenome, com uma transferência massiva de votos do pai.
Nessa situação, passada a onda positiva do lançamento de sua pré-candidatura, o filho de Jair Bolsonaro terá de enfrentar o maremoto de repercussões negativas sobre o pedido multimilionário que fez a Daniel Vorcaro.
O Datafolha fez a última fotografia antes que as conversas afetuosas entre o senador e o banqueiro tivessem efeito nas preferências dos eleitores. A pesquisa, que realizou a maior parte de suas entrevistas antes da divulgação da notícia, evidencia algumas das armas que Flávio tem à disposição para tentar convencê-los a não desistir.
Além de ter absorvido boa parte dos votos do pai, o senador chegou a este ponto da disputa com um índice relevante: uma taxa de rejeição alta, mas aparentemente controlada e levemente abaixo dos números negativos de Lula. Em um mês, o percentual de eleitores que dizem não votar em Flávio de jeito nenhum oscilou de 46% para 43%, enquanto o petista aparece com 47%.
O envolvimento direto do nome Bolsonaro no escândalo que virou conversa de bar em ano de campanha vai testar a resistência desses números. Os desdobramentos do caso sobre esse índice importam porque a rejeição será determinante numa disputa que tem tudo para ser decidida num segundo turno com os dois protagonistas da grande polarização política desta década.
Nesse quesito, a tolerância às notícias envolvendo Flávio dependerá também de Lula. O presidente entrará na campanha com o desafio de reduzir sua própria rejeição e evitar que o antipetismo seja um anestésico forte o suficiente para que uma parte dos eleitores finja que não viu as conexões do senador com Vorcaro.
Lula deu todas as pistas de que vai usar a força do cargo para tentar recuperar a boa vontade do eleitor que o elegeu em 2022.
Nos últimos dias, o presidente anunciou três medidas para tentar cobrir alguns dos flancos vulneráveis de sua popularidade: apresentou um plano bilionário para a segurança pública, revogou a cobrança da “taxa das blusinhas” e assinou uma medida provisória para conter o aumento do preço da gasolina.
As três iniciativas foram uma amostra precoce da força que um candidato à reeleição costuma ter nas mãos. Dado o embate duro que Lula deve enfrentar na campanha, com um candidato de oposição em seu encalço na disputa de segundo turno, é certo que outras armas devem ser sacadas nos próximos meses.
Os números do Datafolha apontam que o petista pode ter dificuldades em dois núcleos principais do eleitorado. O primeiro deles é o que se pode classificar como um eleitor volátil: 9% daqueles que afirmam ter votado em Lula em 2022 dizem não querer um repeteco. Reconquistar parte desses votos seria crucial para a reeleição do presidente.
Outra situação peculiar ocorre justamente na base mais tradicional de Lula, no eleitorado de baixa renda e do Nordeste. Lula mantém bons índices de intenção de voto nos dois segmentos (51% e 60%, respectivamente, no primeiro turno), mas uma boa fatia desse público já não classifica o governo como ótimo ou bom —o que indica um risco maior de perda de entusiasmo e de não comparecimento às urnas.
Os dados da pesquisa e os acontecimentos da última semana são lembretes oportunos de que treino é treino, e jogo é jogo.

