Integrantes da pré-campanha e aliados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reconhecem que a imposição de um novo tarifaço dos Estados Unidos ao Brasil favorece inicialmente o presidente Lula (PT), que tenta colar a culpa no seu adversário. Apesar disso, afirmam que o efeito será reduzido e mais fácil de ser revertido, se comparado ao tarifaço anterior imposto pelo governo Donald Trump, em 2025.
Interlocutores de Flávio Bolsonaro avaliam que o pré-candidato se vacinou contra o tarifaço ao visitar a Casa Branca, no início de julho, para pedir ao governo Trump o cancelamento da imposição da sobretaxa. A ausência de representantes do governo Lula na reunião do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) pesa a favor do oposicionista, ressaltam aliados.
Além da viagem e da ausência de representantes de Lula, o grupo ressalta que desta vez não houve ruído com a Casa Branca. Em junho, Trump postou uma foto com Flávio Bolsonaro após apresentar a proposta do novo tarifaço, o que repercutiu negativamente para o pré-candidato do PL.
Apesar disso, pesquisa Quaest divulgada nesta quinta-feira (16) indica que 51% do eleitorado concorda mais com a versão apresentada por Lula, que acusa Flávio Bolsonaro de provocar o tarifaço. Enquanto isso, 30% dizem concordar mais com o senador. O levantamento foi feito entre 10 a 13 de julho e tem margem de erro de 2 pontos percentuais.
Nesta quinta, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse no X (antigo Twitter) que a sobretaxa acontece porque o petista colocou “seu próprio ego à frente” da busca de um acordo. O pré-candidato do PL compartilhou a fala do aliado e adicionou: “Lula não tem mais condições de ser o presidente do Brasil. Estamos num avião sem piloto”.
Dessa forma, num momento inicial, Flávio Bolsonaro e aliados vão alardear a responsabilidade de Lula sobre o assunto. O grupo também pretende continuar pelos próximos dias o disparo de vídeos do presidente criticando abertamente Trump, inclusive durante o período de negociação do tarifaço, para reforçar a tese de que o petista colocou a perspectiva de ganho eleitoral à frente do comércio brasileiro.
Desde a confirmação do tarifaço, nesta quarta-feira (15), a direita tem destacado a viagem de Flávio em contraposição ao que classificam como uma “inação” proposital do governo Lula. A estratégia é afirmar que enquanto tentou impedir a sobretaxa, o petista deixou o jogo correr. O senador afirmou nas redes que o adversário “cavou um pênalti” e forçou a medida pelos EUA.
Para reforçar essa tese de tarifaço proposital, o grupo avalia destacar, também, possibilidades de ganhos políticos internos de curto prazo com a medida. Há expectativa de que a sobretaxa mantenha produtos brasileiros no mercado nacional, como o etanol, o que pode resultar numa diminuição de preços.
Após o tarifaço imposto em julho de 2025, Lula encontrou na defesa da soberania nacional uma plataforma de campanha e melhorou sua avaliação nas pesquisas. Tal fortalecimento do governo petista, em baixa naquele momento, chegou a ser citado por Flávio Bolsonaro ao pedir que Trump não impusesse novas tarifas ao Brasil.
Apesar disso, partindo do entendimento de que o tarifaço terá impacto limitado no eleitorado, uma ala da campanha aponta que o senador não deve estender o assunto. Esse grupo aponta que ele focará em vender ideias que ofereçam ao eleitorado uma perspectiva de melhoria de vida.
Nesse sentido, Flávio Bolsonaro já havia marcado o lançamento do seu plano de governo voltado para as mulheres para esta quinta, dia seguinte à imposição do tarifaço, que já era esperado. O eleitorado feminino é considerado crucial e causa preocupação, principalmente após a briga pública com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Apesar de indicarem uma preferência por virar a página do tarifaço o quanto antes, a pré-campanha entende que pode ser necessário retornar a esse campo de batalha para conter um eventual sucesso de Lula em emplacar sua versão ou para explorar eventuais falhas do governo na negociação com a Casa Branca.
Enquanto isso, a campanha avalia que há outros temas da relação Brasil-EUA que podem render trunfos mais certeiros a Flávio Bolsonaro. Um deles é a classificação do CV (Comando Vermelho) e do PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas. A medida foi adotada pela Casa Branca, a contragosto do governo Lula.

