O congresso de unificação entre Resistência e Insurgência foi também cenário de um encontro internacional que reuniu organizações irmãs de quatro outros países: Semear (Brasil), Poder Popular (Argentina), Semear o Futuro (Portugal) e Avanzada Socialista (Chile). O intercâmbio girou em torno da situação global e das tarefas da esquerda anticapitalista num momento de ofensiva da direita.
A reunião ocorreu em uma data de alta importância simbólica. Aconteceu no dia 24 de março, aniversário de 50 anos do último golpe militar na Argentina, o golpe que infringiu uma derrota catastrófica à classe trabalhadora deste país. Enquantos nos reuníamos, em Buenos Aires centenas de milhares pessoas se mobilizavam contra um governo que não só pratica o negacionismo do genocídio, como também reivindica, ao menos parcialmente, a ditadura.
Uma mudança de ciclo
O ponto de partida do debate foi a crise capitalista aberta em 2008: econômica, geopolítica e ambiental. Estagnação prolongada, ascenso da China, tensões geopolíticas crescentes. É possível que estejamos frente a um destes grandes momentos de transição histórica do capitalismo como no final do século XIX, a crise de 1914-1945 ou a ruptura neoliberal dos 70. Esse mundo neoliberal está em crise. Todavia, não sabemos o que vem depois, mas o solo se move.
Esta crise impulsionou primeiramente mobilizações de caráter progressivo e um crescimento da esquerda. Porém, as derrotas acumuladas impuseram uma mudança de ciclo. Se for para datá-lo, ele se torna visível ao redor de 2015-2016: o Brexit, a primeira eleição de Trump, a capitulação do Syriza, o esgotamento do progressismo latinoamericano, o fim da primavera árabe. Desde então, a ofensiva reacionária não parou: o segundo mandato de Trump, o crescimento vertiginoso da extrema-direita no mundo todo, a pressão sobre Venezuela, Cuba e Irã, a tragédia de Gaza.
A expressão política principal deste ciclo é a extrema-direita. Não a única, mas sim a mais forte, a mais dinâmica, a mais resiliente.
Como funciona a extrema-direita
A extrema-direita contemporânea não é idêntica ao fascismo histórico. Compartilhar traços importantes, mas opera em outro período. Sua utopia política não é o partido único, nem o regime totalitário-corporativo. Na verdade, busca uma erosão da democracia liberal desde dentro: uma combinação de autoritarismo e disputa eleitoral. O que a ciência política chama regimes híbridos ou autoritarismos competitivos. A Hungria de Orbán como modelo; o Projeto 2025 como programa.
Este autoritarismo é gradual. Não se impõem uma ditadura de um dia para o outro: há uma erosão lenta das instituições, uma degradação paulatina das condições da democracia formal. Isso faz com que seja mais difícil nomear em tempo real e pode levar à subestimação.
Há uma outra característica que merece atenção. Não estamos diante de uma polarização ao estilo dos anos vinte, com dois campos de massas relativamente equilibrados. O processo é mais assimétrico e desigual: não se endireita toda a sociedade; o que ocorre é que um campo avança enquanto o outro se desmoraliza e desmobiliza. O próprio Steve Bannon se pronunciou neste sentido: a estratégia não é construir uma maioria, mas sim consolidar uma minoria forte. Em um momento sem hegemonias duradouras, uma minoria coesionada e disposta a tudo pode se impor em situações de crise, sobretudo se o sistema político está em frangalhos e a sociedade, apática.
Tarefas do período
Se a máxima prioridade do período é derrotar a extrema-direita, a pergunta tática que se impõe é: como? A resposta não pode ser nem o isolamento sectário, nem a dissolução em coalizões sociais-liberais. A tradição da frente única oferece uma bússola, sempre que é distinguida com precisão de outras formas de aliança política.
A frente única não é uma tática de ocasião: é a forma organizativa que corresponde a um período defensivo. Sua lógica é a ação comum entre organizações e forças com programas distintos, sobre objetivos concretos e delimitados, preservando a independência política de cada parte. Marchar juntos, golpear juntos, manter as bandeiras. Não supõe acordo programático de fundo, nem fusão de identidades: supõe convergência na resistência. Neste sentido, a frente única é a tática de todo o período: não só uma resposta a uma conjuntura particular, mas sim a forma permanente de construção de um bloqueio social que possa conter e reverter a ofensiva reacionária.
Isto é diferente da frente ampla eleitoral, que pode ser uma tática episódica, delimitada para momentos eleitorais específicos onde o perigo autoritário se concentra em uma disputa concreta. O caso do Brasil em 2022 é o exemplo mais recente mais claro. A coalizão que derrotou Bolsonaro foi ampla, heterogênea, com contradições internas evidentes, incluindo partidos centristas e dissidências da burguesia que tinham rompido com Bolsonaro. A esquerda socialista participou dessa coalizão sem renunciar a sua identidade, sustentando uma posição crítica ativa dentro do campo amplo. Não foi uma fusão com o lulismo, mas sim uma intervenção com independência tática em uma disputa onde a derrota do bolsonarismo era uma condição necessária – ainda que insuficiente – para qualquer perspectiva de avanço posterior.
A reunião também debateu a necessidade de impulsionar uma articulação internacional antifascista e antimperialista capaz de conectar as lutas da classe trabalhadora que hoje acontecem no distintos países, assim como de fortalecer o vínculo entre organizações revolucionárias para dar forma a uma frente única internacional. Neste sentido, resolveu-se avançar na realização de um novo encontro no próximo período, com as organizações presentes e eventualmente com outras que podem se somar, para voltar a debater a situação política mundial e estreitar os laços políticos e estratégicos entre estas forças.
A reunião se encerrou com a convicção compartilhada de que nenhum destes desafios pode se resolver isoladamente. Frente a uma extrema-direita que já atua internacionalmente, compartilhando recursos, narrativas e estratégia através das fronteiras, a esquerda anticapitalista necessita fortalecer seus próprios laços globais. Não como uma internacional imaginária no papel, mas sim como uma rede viva de organizações marxistas, ecossocialistas, democráticas, anti-racistas e feministas, capazes de aprender coletivamente de suas experiências, apoiar-se mutuamente nos momentos defensivos e projetar em comum uma alternativa socialista à altura do período histórico. A esta perspectiva, exatamente, é que esse congresso de unificação quer contribuir.
São Paulo, 24 de março de 2026

