“Um sonho realizado hoje. Eu quero dividir esse sonho com três pessoas”, afirma o então governador Claudio Castro (PL) ao lado de um grupo de aliados políticos, depois de darem uma corridinha cenográfica numa pista de atletismo tinindo de nova. Eles têm ao fundo o parque RJ Nosso Sonho, inaugurado naquele 1º de março em São Gonçalo, região metropolitana do Rio, segunda cidade mais populosa do estado, com 960 mil habitantes.
Os três a quem ele agradece, todos do seu partido, são o prefeito de São Gonçalo, o ex-PM Capitão Nelson (“um líder, que está transformando essa cidade”), o deputado federal Altineu Côrtes, presidente do PL-RJ, vice-presidente da Câmara e principal líder do grupo (“meu presidente, meu amigo, meu irmão, (…) o elo de ligação, uma roldana, que faz a gente andar pra lá, andar pra cá mas não se soltar nunca”), e o seu então secretário das Cidades, Douglas Ruas, filho do prefeito (“o melhor secretário que eu tenho (…), que fez essa obra toda”).
Com 35 mil m², erguido na área do antigo piscinão de São Gonçalo, o novo parque fica entre a BR-101 e a baía de Guanabara, onde estão as poucas (e normalmente não balneáveis) praias da cidade. Tem também quadras, pista de skate, área infantil, anfiteatro e, como grande atração, uma cascata para banho. Custou, segundo o governo, R$ 53 milhões.
Hoje, pouco mais de dois meses depois da inauguração festiva, o grupo está debilitado. Castro renunciou ao mandato para não ser cassado pelo TSE –que o condenou por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022– e deve ser impedido de concorrer ao Senado. O deputado estadual Rodrigo Bacellar (União), com enorme influência no governo, foi preso e teve o mandato cassado junto com Castro, perdendo o posto de presidente da Assembléia Legislativa (Alerj).
Douglas Ruas ascendeu nesse cenário de terra arrasada: foi escolhido pré-candidato do bolsonarismo ao governo estadual e eleito presidente da Alerj no lugar de Bacellar. Em tese, assumiria a liderança do Executivo, já que o cargo de vice de Castro está vago e, segundo a Constituição, o chefe da Assembleia é o próximo na linha sucessória. Mas, num revés para Ruas e aliados, o Supremo Tribunal Federal mantém na função o desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do RJ, até que decida se a eleição para o sucessor de Castro será direta ou indireta.
A cena palanqueira do parque Nosso Sonho ajuda a ilustrar como Ruas chegou lá. Graças à parceria com Castro e Altineu –que tem a cidade como base eleitoral–, São Gonçalo recebeu nos últimos anos mais dinheiro que nunca. O orçamento do município saltou de cerca de R$ 1,5 bilhão no início da década para R$ 2,5 bilhões, acima da inflação do período, graças em parte ao R$ 1 bilhão repassado pelo governo Castro (em parcelas) pela venda da Cedae, a companhia de água e esgoto, privatizada em 2021.
O governo Castro também investiu diretamente recursos vultosos em obras estaduais em São Gonçalo, como no projeto de mobilidade urbana Muvi, orçado em R$ 287 milhões, e atendeu a pedidos antigos de políticos locais, como a instalação de um novo batalhão da PM na cidade.
Altineu Côrtes, por sua vez, patrocinou outra dinheirama em emendas para o município. Como mostrou a Folha, em julho de 2023 São Gonçalo era a campeã nacional no recebimento de emendas federais, com R$ 36,2 milhões –apesar de ser da oposição, o presidente estadual do PL negociava cargos de terceiro escalão no governo Lula.
Em novembro de 2025, segundo o jornal O Globo, Altineu destinou R$ 92 milhões em emendas de comissão e do antigo orçamento secreto para obras do município, a maior parte da verba direcionada a empresas multadas pelo TCE por irregularidades em obras.
Turbinado com verbas estaduais e federais, o prefeito Capitão Nelson espalhou obras por São Gonçalo –com grande volume em pavimentação e drenagem, como a reportagem constatou durante um dia na cidade na primeira semana de maio. As mais vistosas foram o Centro de Imagens e Especialidades (Ciesg), o Hospital do Câncer e do Coração e o parque RJ Nosso Sonho.
Capitão Nelson também multiplicou votos. Na eleição de 2020, o pai de Douglas Ruas ganhou por um triz do petista Dimas Gadelha no segundo turno (50,8% a 49,2%). Em 2024, com os cofres mais cheios, deu uma lavada no mesmo adversário, vencendo já no primeiro turno por 84,5% a 10,5%.
Ao assumir o primeiro mandato, em 2021, nomeou Ruas secretário de Gestão Integrada e Projetos Especiais, e desde então o filho é tido nos bastidores como o prefeito de fato de São Gonçalo. O de direito, Capitão Nelson, afirmou à Folha que incumbiu o filho de elaborar projetos e captar recursos junto aos governos estadual e federal, “já que São Gonçalo é uma cidade pobre, com orçamento pequeno e muitos problemas”.
Por orientação de sua assessoria, que negou pedido para uma entrevista de viva voz, Capitão Nelson respondeu por escrito a perguntas enviadas pela reportagem.
“Ele é um excelente gestor”, elogiou o pai, que também exaltou o papel do deputado Altineu Côrtes. “É um parceiro de todas as horas, e enxergou logo todas as qualidades do Douglas.”
Em 2022, Ruas foi eleito deputado estadual com a segunda maior votação do estado (175.977 votos, 85% deles oriundos de São Gonçalo). Em setembro de 2023, foi nomeado por Castro secretário das Cidades.
Apesar da injeção de recursos, São Gonçalo –onde nasceram o craque Vini Jr e os cantores Claudinho & Buchecha– continua a ser uma cidade carente, vizinha pobre da rica Niterói, à qual sucede na BR-101 a quem sai da capital fluminense e atravessa a ponte Rio-Niterói. Pelo Censo 2022, Niterói tem o maior rendimento mensal domiciliar per capita do estado do Rio de Janeiro (R$ 3.577), quase o triplo do de São Gonçalo (R$ 1.209).
O reduto eleitoral dos Ruas já foi uma das cidades mais industrializadas do estado nos anos 1940 e 1950, recebendo o apelido de “Manchester fluminense”. A atual gestão alega que esse processo não foi acompanhado de investimentos em infraestrutura e que o crescimento desordenado e a ausência de incentivos afugentaram as empresas, gerando desemprego e transformando São Gonçalo em cidade-dormitório –reputação da qual a cidade até hoje se ressente e tenta afugentar.
Por ora sem a parceria do governo estadual –o interino Ricardo Couto tem feito uma devassa em cargos e gastos da gestão Castro–, São Gonçalo ironicamente está à espera de verbas acertadas num acordo assinado com o principal adversário de Ruas na disputa de outubro, o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD), favorito nas pesquisas.
Desde a década passada, São Gonçalo, Magé e Guapimirim brigam na Justiça para serem incluídas na chamada zona principal de produção de petróleo e receberem mais royalties pela exploração, como ocorre com Niterói, Rio e Maricá (a campeã do ranking), entre outras. Perderam nos tribunais superiores –depois de Niterói recorrer, criando um conflito entre as vizinhas.
Em dezembro, as prefeituras do Rio e Maricá anunciaram um acordo com as três reclamantes para abrir mão de parte dos seus royalties em favor delas. O pacto foi assinado na Prefeitura de São Gonçalo. Na época, a estimativa da gestão era que, com o acordo –pendente de homologação do STF–, a arrecadação do município com royalties passaria de uma média de R$ 45 milhões anuais para R$ 380 milhões –num aumento progressivo, e com valores sujeitos ao preço internacional do petróleo.
A assinatura se insere num cálculo político de Paes e do prefeito de Maricá, seu aliado petista Washington Quaquá, de cabalarem votos em São Gonçalo. Mas também era reflexo de certa trégua que vigorou em 2025 entre o então prefeito carioca e o governo Castro. De lá pra cá, com a crise dos últimos meses, a relação ruiu, a ponto de Paes definir a gestão do ex-governador como “máfia”, em resposta a queixas de Ruas por o PSD ter levado a sucessão ao STF.
Ainda assim, o ex-prefeito do Rio disse que o acerto dos royalties está mantido. “Não tinha qualquer acordo eleitoral nisso. É justo com São Gonçalo”, disse Paes à Folha.
Está de pé ainda que o STF decida pela constitucionalidade da lei da redistribuição de royalties com estados não produtores? “Será mantido. A ação judicial não guarda qualquer relação com o acordo feito.”
Capitão Nelson foi na mesma toada. “Acreditamos que disputas políticas não irão interferir na questão, já que estamos falando do desenvolvimento de toda a região metropolitana.”
A religiosidade e a segurança pública estão associadas aos dois principais líderes políticos deste século em São Gonçalo. Aparecida Panisset, prefeita por dois mandatos seguidos (2005-2012) explorou seus laços com igrejas evangélicas, e terminou condenada por desvio de recursos em convênio com uma dessas entidades. São Gonçalo tem forte presença de evangélicos (pelo Censo 2022, são 35,6% da população ante 35,2% católicos), com templos de incontáveis denominações a cada esquina.
Antes de chegar à prefeitura, o oficial reformado da PM Nelson Ruas dos Santos foi vereador por 15 anos. Licenciou-se durante o último mandato para assumir uma cadeira na Alerj em 2019 –conseguira na eleição de 2018 uma suplência de deputado estadual–, quando o titular, Marcos Abrahão, foi preso na Operação Furna da Onça.
Além de Douglas Ruas, Capitão Nelson tem outro filho na política, o vereador de São Gonçalo Nelsinho Ruas, o mais votado para a Câmara Municipal em 2024. Em dezembro passado, o carro de Nelsinho foi atingido por tiros quando ele chegava a seu sítio. Sua assessoria tratou o episódio como um atentado; as polícias Civil e Militar disseram ter se tratado de uma briga de trânsito.
Até pela origem do prefeito, a segurança é um tema recorrente na cidade. Capitão Nelson tem sido cobrado por moradores por não cumprir a promessa de retirar barricadas colocadas pelo tráfico –de fato, há várias pelas ruas de São Gonçalo. Ele diz que, com ajuda estadual e federal, a prefeitura está “trabalhando dia a dia para mudar este cenário”.
Moradores ouvidos pela reportagem citam melhorias na cidade, sobretudo pavimentação e drenagem de ruas, mas com ressalvas. “A cidade melhorou bastante. Mas não conheço o Douglas, não o vejo por aqui. Precisa andar os mesmos passos do pai e se aproximar da comunidade. Não adianta só nome”, disse a cuidadora Patrícia Castro.
Já João César Sampaio, fundador da ONG Casa do Pai e que se definiu como “evangélico progressista”, afirmou: “Numa cidade onde não tinha nada, esse sujeito entra com dinheiro e faz uma maquiagem. Não sou eleitor dele, mas, para quem nunca teve nada, para um povo com baixa autoestima de cidade-dormitório, acabou melhorando”.
Terceiro colocado na corrida à prefeitura em 2024, o deputado estadual Professor Josemar (PSOL), raro oposicionista na política local, afirma que a maioria das obras feitas não são estruturais (“alagamentos e desabamento de costas continuam”) e define a gestão do prefeito como “autoritária, que desrespeita os servidores públicos, destruindo o plano de cargos e salários”.

