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Putin entrará para a história como Hitler, diz escritor ucraniano Andrey Kurkov a VEJA


Principal nome da literatura ucraniana contemporânea, Andrey Kurkov é um dos mais proeminentes críticos à guerra desencadeada pela invasão da Rússia à Ucrânia, em 2022. Com obras premiadas que passeiam por não ficção, romances e livros infantis, o versátil autor vê na arte uma ferramenta essencial para manutenção da identidade de um país.

A VEJA, às vésperas de participar da FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, Kurkov falou sobre língua, política e paz.

O senhor é muito vocal sobre a invasão russa à Ucrânia. Qual o papel da arte nesse conflito? É uma forma de resistência?

A cultura é uma das vítimas desta guerra — e temos mais de 300 escritores, poetas, tradutores e editores mortos no conflito. O papel das artes e da cultura é servir de testemunha e compartilhar informações: seja através do cinema, pintura, música ou literatura.

Desde o início da invasão em larga escala, mais de 800 bibliotecas foram destruídas ou danificadas nos territórios ocupados. Livros ucranianos foram retirados, e a Rússia se orgulhou de levar milhões de exemplares de literatura clássica e moderna russa para os territórios ucranianos ocupados. Muitos museus foram danificados ou destruídos. Recentemente, houve outro ataque a museus ucranianos e ao principal mosteiro de Kiev.

A cultura é parte da identidade, e a identidade ucraniana também é alvo dos russos.

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A questão do idioma é extremamente sensível na Ucrânia e o senhor escreve parte das suas obras em russo. Por que escrever em russo sendo um símbolo tão proeminente da arte ucraniana? Isso enfurece nacionalistas ucranianos?

Eu faço parte da população de língua russa — uma parcela que, antes da guerra, representava cerca de 40% e, agora, provavelmente 20%. Mas falar russo não significa ser pró-Rússia.

Na verdade, existem muitos nacionalistas ucranianos que também falam russo. Embora a língua russa seja agora considerada, quase oficialmente, a língua do inimigo, ela continua sendo o idioma de muitos ucranianos que lutam pela Ucrânia e defendem a independência do país. Além disso, é a minha língua materna. Escrevo em três idiomas, mas minhas obras de ficção são escritas na minha língua materna: o russo.

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Sim, sou criticado por alguns intelectuais. Não sou aceito por outros. Mas continuei sendo ucraniano. Talvez eu não seja ucraniano de origem étnica, mas sou, sem dúvida, ucraniano do ponto de vista político e cidadão da Ucrânia.

Após a invasão, algumas pessoas, especialmente na Europa, começaram a protestar e a deixar de consumir cultura russa, como óperas, concertos e livros. Como você vê isso?

Bem, consumir cultura russa é uma coisa, pois a cultura é um instrumento para a Rússia. A Rússia investiu milhões de dólares na promoção da cultura russa, fazendo isso para conquistar as pessoas e criar russófilos. E eles conseguiram. Quero dizer, há muitas pessoas na Europa e fora dela que adoravam Dostoiévski, Tolstói e o balé russo, mas consumir essa cultura agora significa apoiar a Rússia.

Por isso, eu não consumo — e não consumo há uns 20 ou 30 anos — a cultura russa. Afinal, o fato de eu usar o idioma não significa que eu consuma a cultura criada por meio dessa língua na Rússia.

O que você pensava quando era jovem, ao ver a União Soviética chegar ao fim? Como imaginava a Ucrânia como uma nação independente e soberana?

Bem, em 1991 eu estava muito otimista. Eu achava que a Ucrânia se tornaria rapidamente uma democracia ocidental estável, como a Polônia ou a Romênia.

Mas, é claro, os políticos ucranianos não fizeram muito para mudar a mentalidade das pessoas ou para transformar o sistema econômico soviético. Assim, em vez de passar por mudanças políticas rápidas — como as que ocorreram na Lituânia, na Estônia e na Letônia, nos Estados Bálticos —, a Ucrânia permaneceu imersa no modo de vida soviético.

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Foi assim que surgiram a corrupção e a passividade política entre os políticos.

Sobre políticos: tivemos grandes protestos nesta semana na Ucrânia. O senhor já criticou a transformação do presidente Zelensky de um comediante para um político. Confia nele como líder?

Bem, não temos outro líder no momento. Aprecio o que ele faz a nível internacional e ele conquistou muito apoio pessoal, de fato, com seus esforços e suas viagens.

Mas também não fiquei satisfeito com sua decisão de demitir o ministro da Defesa Theodorov e vejo que ele agora recuou e está buscando a possibilidade de encontrar outra posição para permanecer no governo, ativo e responsável em um cargo que exija sua experiência.

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Como Volodymyr Zelensky será visto pela história?

Acho que ele será considerado um herói. Porque, veja bem, a história é algo universal, especialmente a história mundial. E, para o mundo, Zelensky já é um herói. Ele é criticado por 25% dos ucranianos, mas os ucranianos sempre esperam mais dos políticos do que estes conseguem entregar.

Então, nesse sentido, tenho certeza de que esta guerra — por ele ter sido tão ativo, por ser jovem e por estar lutando contra o Putin, que é de uma geração antiga — será vista como um conflito entre o passado e o futuro, e Zelensky será considerado o representante do futuro. Uma futura geração de políticos.

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E como Vladimir Putin será visto?

Acho que da mesma forma que a história vê o general Franco na Espanha, Hitler na Alemanha e todos os outros ditadores.

Ele está empurrando a Rússia e o povo russo para o fascismo. Ele retirou liberdades dos russos, e eles concordaram; abriram mão de suas liberdades ao longo dos 26 anos de seu governo em troca de prosperidade e estabilidade.

Então, a regra de vida na Rússia é: se você quer viver bem, ter dinheiro suficiente e uma vida tranquila, não deve se envolver com política. Ou seja, trata-se de um regime autoritário típico, mas a postura da Federação Russa em relação aos países vizinhos é extremamente agressiva — e sempre foi muito agressiva.

Isso vem desde a época soviética, quando a União Soviética atacou a Hungria em 1956, a Tchecoslováquia em 1968 e a Polônia; depois, houve o ataque à Geórgia em 2008, as duas guerras na Chechênia e, agora, a guerra em grande escala contra a Ucrânia.

Há uma clara estagnação em negociações e um avanço recente no número de ataques. Como você as chances de paz neste momento?

Bem, quero dizer que a paz só é possível após a morte de Putin. Putin não concordará com negociações. Ele só aceitaria se percebesse que precisa de uma pausa de vários meses para recompor seu Exército.

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Ele não concordará com negociações porque, se o fizesse, o povo russo o veria como fraco.

Acha que outro líder russo concordaria com negociações?

É possível. Se esse líder for cauteloso e pensar no futuro da economia russa e no futuro da Rússia no contexto da política mundial…

Porque, para Putin, o contexto mundial não é importante. Ele criou uma atmosfera em que a Rússia está praticamente isolada. Todos são inimigos, exceto Irã, Coreia do Norte e China. Nessa configuração, a Rússia não tem futuro em termos de relações comerciais internacionais ou de evolução científica. É como fechar o país e trancá-lo por dentro.

O senhor não é diplomata, é um escritor. Mas qual seria a solução para o conflito? 

A solução, provavelmente, seria antes de tudo interromper as atividades de guerra. Congelar a linha de frente. Concordar que as questões principais serão discutidas e decididas, talvez, daqui a 10 anos.

E convidar forças internacionais — seja a Otan, os “capacetes azuis” da ONU ou outras — para garantir a segurança da linha de frente. Portanto, definitivamente não haverá sucesso nas negociações com a Rússia, mesmo após o fim das hostilidades.

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É possível parar a guerra. Não é possível assinar nenhum acordo de paz com a Rússia.

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Com guerras no Irã e em Gaza, acha que o mundo abandonou a Ucrânia?

A Ucrânia sempre precisa de mais apoio, mas, na verdade, a Europa tem apoiado a Ucrânia de forma constante. E minha esperança é que esse apoio europeu se mantenha. Trump parou de apoiar a Ucrânia quando assumiu a presidência; além disso, não tivemos muito apoio da África, da América Latina ou da Ásia.

Nós fazemos parte da Europa, e o mais importante é manter essa base de amizade com a União Europeia. Essa é a principal esperança para a Ucrânia.

Se a Ucrânia perder esta guerra, as próximas vítimas serão os Estados Bálticos e a Polônia — países da OTAN. E então, ou haverá uma Terceira Guerra Mundial, ou a OTAN se dissolverá; a OTAN aceitará que não é capaz de reunir suas forças e defender seus membros. Certo.

O senhor vem ao Brasil como o primeiro ucraniano a participar da FLIP, um festival literário bem tradicional. O que acha que os brasileiros precisam saber da cultura ucraniana?

Há muitos brasileiros de origem ucraniana. Conheci alguns deles nos Estados Unidos, na Califórnia, quando dava aulas em Stanford.

Acho muito importante que a literatura ucraniana chegue ao mercado editorial brasileiro, especialmente obras de não ficção sobre a história da Ucrânia. Porque, se os leitores e intelectuais brasileiros compreenderem a diferença entre a história da Rússia e a da Ucrânia, será muito mais fácil para eles entenderem o que está acontecendo agora e como essa guerra se tornou possível.



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