Dona da empresa Go Up, produtora do filme “Dark Horse” (“Azarão”), uma ode à biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Karina Ferreira da Gama pediu à Prefeitura de São Paulo a concessão de uso de uma casa na periferia de São Paulo, por meio de um programa da gestão municipal voltado para famílias de baixa renda. O requerimento foi assinado em 2025.
Karina é sócia de outras empresas e ONGs que foram beneficiadas nos últimos anos com verbas públicas milionárias.
Em 2024, o Instituto Conhecer Brasil, presidido por ela, firmou um contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura, na gestão Ricardo Nunes (MDB), para fornecer internet wi-fi em comunidades de baixa renda, após chamamento público. A contratação está sob investigação do Ministério Público de São Paulo.
Deputados do PL também direcionaram mais de R$ 4,5 milhões em emendas parlamentares para o instituto e para a ANC (Academia Nacional de Cultura), da qual Karina é presidente, entre 2024 e 2025.
A Folha procurou Karina, por meio de sua assessoria, para perguntar sobre o pedido de concessão de uso do terreno em meio ao contrato milionário assinado com a gestão municipal, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
A Secretaria Municipal de Habitação afirmou que o pedido da empresária foi indeferido porque, após análise técnica e documental, verificou-se que ela não atendia aos requisitos previstos na legislação municipal. “A Sehab ressalta que todos os processos de transferência passam por análise técnica e jurídica individualizada, observando os critérios legais e normativos aplicáveis.”
Em janeiro de 2025, Karina apresentou à pasta um requerimento para transferir para o seu nome a concessão de uso especial de um lote na Brasilândia, bairro na zona norte de São Paulo. No Mapa da Desigualdade de São Paulo de 2024, a região aparece como a pior da cidade em termos de qualidade de vida.
Um tio de Karina, que morreu em 2018, era o titular do benefício, que permitiu que áreas públicas fossem usadas para fins de moradia. Ela informou à prefeitura, segundo documentos obtidos pela Folha, que o local possui quatro casas, todas ocupadas pela família. Disse, ainda, que morava no terreno.
A reportagem esteve na noite desta quinta-feira (21) no local. Vizinhos, inclusive parentes, confirmaram que Karina ainda mora ali com os pais, mas não souberam dizer com o que ela trabalha. A dona da Go Up se apresenta como “bacharel em jornalismo” em um perfil no X.
O programa de regularização fundiária foi anunciado em 2008 pela prefeitura como um benefício para famílias de baixa renda.
Segundo portaria da secretaria publicada naquele ano, o beneficiário da concessão de uso especial deveria assinar um termo em que declarava não ser proprietário de outro imóvel e se enquadrar na situação socioeconômica de baixa renda.
Em abril do ano passado, a prefeitura rejeitou o pedido de Karina. A secretaria de Habitação concluiu, após uma visita, que o imóvel não tinha “condições de habitabilidade” e que se encontrava vazio.
Na última semana, a prefeitura disse à Folha que a contratação do Instituto Conhecer Brasil, dirigido por Karina, “foi realizada por meio de chamamento público transparente e sem contestações”.
Segundo a gestão Nunes, “a organização social cumpriu todas as exigências previstas no edital, e a prestação do serviço está em andamento com 3.200 pontos de wi-fi implementados e 1.800 pontos previstos para 2026”.
O contrato está sendo investigado em um inquérito civil na Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social da Capital. A partir de denúncias recebidas pelo órgão, o Ministério Público apura se houve direcionamento do chamamento público, ausência de justificativa técnica ou econômica para o acordo, celebração de aditivos contratuais em sequência e repasses financeiros adiantados, referentes a serviços ainda não implantados.
Segundo o registro do Instituto Conhecer Brasil na Receita Federal, sua principal atividade econômica envolve “atividades de associações de defesa de direitos sociais”.
São listadas outras 26 atividades econômicas secundárias, entre elas edição e impressão de livros, consultoria em tecnologia da informação, pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências físicas, naturais, sociais e humanas, gestão de ativos intangíveis não-financeiros, serviços de organização de feiras, educação infantil e ensino fundamental, médio e superior.
“DARK HORSE”
O deputado federal Mario Frias (PL), produtor-executivo do filme “Dark Horse”, foi um dos que direcionaram emendas para instituições dirigidas por Karina –o Instituto Conhecer Brasil recebeu R$ 2 milhões do parlamentar em 2025 para projetos de letramento digital e incentivo ao esporte.
Segundo o UOL, o Supremo Tribunal Federal já tentou intimar o parlamentar por quatro vezes para que ele preste esclarecimentos sobre a destinação da emenda. Frias foi chamado para uma reunião no Texas, nos Estados Unidos, nesta sexta-feira (22), organizada pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) com aliados. Na última semana, esteve com o filho de Bolsonaro no Bahrein, monarquia do golfo Pérsico.
Na campanha de 2022, Frias pagou R$ 54 mil para uma empresa de Karina por serviços de assessoria de imprensa. Em dezembro daquele ano, ela participou da diplomação do deputado e posou para fotos com ele e sua família. A mulher do parlamentar, Juliana Frias, publicou um dos registros com Karina. “Obrigada por tudo equipe!!”, escreveu.
Na semana passada, o site The Intercept Brasil revelou que o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, cobrou do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, a quitação de parcelas de financiamento do longa-metragem sobre Bolsonaro. Informações reveladas pelo site e confirmadas pela Folha indicam que Vorcaro pagou R$ 61 milhões para a realização do filme.
Ainda que Flávio tenha confirmado que pediu dinheiro ao ex-banqueiro, Karina negou à Folha o recebimento de repasses de verba de Vorcaro para o projeto e disse que a produtora só tem investimentos estrangeiros.
Após a divulgação dos áudios entre Vorcaro e Flávio, Mario Frias também negou que houvesse recursos do ex-banqueiro no longa.
Mensagens reveladas pelo Intercept Brasil na terça-feira (19), porém, indicam que o parlamentar agradeceu ao dono do Banco Master pelo apoio ao filme. “Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá?”, afirmou em áudio enviado a Vorcaro.
Colaborou Evelyn Aires

