Entristece repetir notícias passadas, mas sobre esse tema é o que de fato acontece. O ano era 2022 quando a crise climática atingiu com força as comunidades periféricas da Região Metropolitana do Recife e da Zona da Mata. Deslizamentos, inundações, mortes.
Mas não estamos mais em 2022. Estamos em 2026. E o caos se repete. Surge das lamas e das águas que não param de cair, alimentado pela falta de planejamento e pelo “querer político”. Porque estamos falando de áreas pobres e periféricas. Sempre as primeiras a sucumbir.
1º de maio sob água
O Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, 1º de maio de 2026, foi marcado pelo mesmo roteiro trágico. Crise climática muito debatida, pouco enfrentada. Recife, Olinda, Jaboatão e cidades da Zona da Mata registraram na noite desta sexta: 4 mortes, 422 desabrigados e mais de 1.068 desalojados.
O racismo ambiental não é metáfora
Até quando as periferias serão laboratórios de experimentos sociais e ambientais das gestões públicas? Enquanto se fala em crise climática, libera-se desmatamento e aterramento de rios. Muribeca é engolida por grandes construções em Jaboatão. A comunidade da Linha, no Ibura de Baixo, sofre com a expansão urbana por cima do rio.
É ali que o racismo ambiental deixa de ser conceito e vira estatística de morte.
O que mudou? A base, não o topo
Na gestão pública, nada. Os debates não saem do papel. Na população, mudou tudo. Mudou a força de articulação. Assim como em 2022, foi a sociedade civil que se colocou à disposição.
Movimentos sociais montaram cozinhas comunitárias, centros de acolhimento e redes de donativos em plena pandemia. A solidariedade virou política pública de fato, feita por quem vive o desastre na pele.
2026: resistência como protocolo
E não está sendo diferente agora. A sociedade se mobiliza de novo com cozinhas, acolhimentos e centrais de donativos. Mas com um avanço: criaram protocolo de desastre. Orientam quem mora em área de risco a deixar uma mochila pronta com documentos, remédios, roupas.
O Estado não planeja. A periferia se antecipa.
O aprendizado veio de baixo
Entre 2022 e 2026, o que se aprendeu não veio do poder público. Veio da base. Das periferias que, abandonadas, aprenderam a se proteger sozinhas.
A pergunta que fica não é técnica. É ética: até quando o planejamento vai ignorar quem mais sofre? Até quando a chuva vai levar vidas que poderiam ser salvas com decisão política real?

