Considerada durante décadas a mulher mais procurada da Alemanha, a ex-integrante da Facção Exército Vermelho (RAF) Daniela Klette foi condenada nesta quarta-feira, 27, a 13 anos de prisão por roubos à mão armada cometidos após a dissolução oficial do grupo extremista de esquerda. A sentença foi anunciada pelo Tribunal Regional de Verden, no norte do país, após um julgamento que durou 14 meses e mobilizou forte esquema de segurança.
Hoje com 67 anos, Klette foi considerada culpada por seis acusações de roubo qualificado, extorsão, sequestro e posse ilegal de armas militares em crimes cometidos entre 1999 e 2016. Segundo investigadores alemães, os assaltos tinham como objetivo financiar a vida clandestina de antigos integrantes da RAF depois do fim da organização, anunciado oficialmente em 1998.
“Eles executaram os roubos de forma altamente conspiratória e com clara divisão de tarefas”, afirmou o juiz Lars Engelke durante a leitura da sentença.
Os promotores haviam pedido pena máxima de 15 anos. Segundo a acusação, a fugitiva atuava ao lado de Burkhard Garweg, de 57 anos, e Ernst-Volker Staub, de 72, ambos ainda foragidos. O trio teria roubado mais de 2 milhões de euros em ataques a carros-fortes e supermercados em diferentes estados alemães.
A ex-militante nega participação em um dos principais crimes atribuídos ao grupo: o assalto a um carro-forte em Cremlingen, na Baixa Saxônia, no qual foram roubados 1,3 milhão de euros. Durante a ação, criminosos dispararam contra seguranças da empresa de transporte de valores. Ninguém morreu no local, mas um dos vigilantes sofreu uma crise de ansiedade e morreu posteriormente em uma instituição psiquiátrica.
Os advogados de defesa afirmam que o julgamento teve motivação política. Já a acusada, sem assumir culpa pelos crimes, declarou ao fim do processo que lamentava o trauma causado às vítimas, mas associou a violência ao “capitalismo e imperialismo”.
+ Polícia é acionada dentro de avião da Latam na Alemanha após confusão por assento
Identidade brasileira
A ex-integrante da RAF viveu mais de três décadas escondida da polícia alemã sob identidade falsa em Berlim. Conhecida entre amigos como “Cláudia Ivone”, frequentava uma comunidade brasileira ligada à capoeira no bairro multicultural de Kreuzberg, onde morava havia cerca de vinte anos.
“Eu não conheço Daniela Klette, eu conheço a Cláudia. Ela era como uma irmã para mim”, afirmou à emissora alemã WDR Emerson Gomes da Silva, brasileiro que conviveu com a ex-militante na capital alemã.
Segundo ele, a amiga evitava falar sobre o passado, embora despertasse curiosidade. “Ela dizia que todo mundo tem um segredo”, contou.
A prisão ocorreu em fevereiro de 2024, após investigadores conseguirem identificá-la em fotografias publicadas na internet. De acordo com a imprensa alemã, um jornalista canadense utilizou inteligência artificial (IA) para comparar imagens antigas da extremista com registros recentes encontrados em redes sociais.
As imagens mostravam a alemã participando do tradicional Carnaval das Culturas de Berlim ao lado de um grupo de capoeira. Em uma das fotos, ela aparece sorrindo, usando uma bandana branca e jogando confetes durante o desfile.
A operação policial que levou à prisão encontrou no apartamento da ex-integrante da RAF um arsenal de armas, documentos falsificados, perucas, ouro e cerca de 240 mil euros em dinheiro. Investigadores também afirmam ter localizado vestígios de DNA dos dois cúmplices foragidos no imóvel, inclusive em uma escova de dentes elétrica.
Apesar da condenação, os problemas judiciais de Klette estão longe do fim. Ela ainda responderá em Frankfurt por acusações relacionadas a atentados cometidos no início dos anos 1990, quando a RAF ainda estava ativa. A ex-militante, porém, já não pode mais ser julgada por participação em organização terrorista: o prazo legal para esse tipo de acusação expirou em 2018, vinte anos após a dissolução do grupo.
+ Merz volta a alfinetar Trump e diz que ‘não aconselharia’ seus filhos a viajarem aos EUA
O legado da RAF
Criada à margem dos movimentos estudantis de 1968, a RAF — também conhecida como grupo Baader-Meinhof, em referência aos fundadores Andreas Baader e Ulrike Meinhof — promoveu uma campanha armada contra o Estado alemão entre as décadas de 1970 e 1990. O grupo anticapitalista acusava a então Alemanha Ocidental de manter estruturas autoritárias herdadas do nazismo e defendia a luta armada contra o que classificava como “imperialismo americano”.
A organização foi responsável por atentados, sequestros, assassinatos e explosões que deixaram ao menos 34 mortos e mais de 200 feridos. Entre os episódios mais traumáticos atribuídos à RAF, estão o sequestro de um avião da Lufthansa em 1977 e o assassinato de Alfred Herrhausen, então presidente do Deutsche Bank, em 1989.

