Prestes a oficializar sua candidatura à reeleição, o presidente Lula (PT) avalia faltar a todos os debates com os demais candidatos promovidos no primeiro turno por emissoras de televisão e outros veículos de imprensa.
O tema divide a cúpula petista. Parte dos aliados mais poderosos de Lula teme que, como atual presidente é o único candidato de esquerda na disputa, ele fique muito exposto a ataques no confronto com os adversários, alinhados à direita e em busca do título de opositor.
Prováveis candidatos como Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) são do campo antipetista e, se tiverem oportunidade, tentarão desgastar Lula. Como não deverá haver outro candidato alinhado à esquerda nos debates, o presidente precisaria enfrentar sozinho todos os adversários.
Outro grupo do partido de Lula defende que ele participe dos encontros para não perder oportunidades de entrar em embates com Flávio Bolsonaro, que será seu principal adversário.
Por lei, as emissoras têm obrigação de convidar, além do petista e do pré-candidato do PL, apenas Caiado e Augusto Cury (Avante). A legislação determina que é obrigatório o convite para os candidatos cujos partidos tenham mais de cinco representantes no Congresso. O STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu ano passado que o cálculo será feito com base no resultado da eleição de 2022, sem considerar as mudanças de partido ocorridas depois.
Se Lula não comparecer, há uma avaliação de que Flávio Bolsonaro também pode faltar aos debates, e não terá de responder sobre sua relação com o escândalo do Banco Master. Em maio, foi divulgado um áudio em que o senador pede dinheiro ao antigo dono do banco, Daniel Vorcaro, para concluir um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Um dos principais pontos da estratégia eleitoral de Lula é justamente aumentar a rejeição do eleitorado a Flávio usando o caso Master e o tarifaço do governo americano contra produtos brasileiros, por causa da afinidade do grupo político bolsonarista com Donald Trump.
A ausência de presidentes em debates durante campanhas à reeleição é uma estratégia conhecida. Em 2006, quando concluía seu primeiro mandato, Lula decidiu não comparecer aos encontros do primeiro turno, confiando na ampla vantagem que tinha sobre o segundo colocado –o hoje vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB, à época no PSDB).
Em 1998, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) também não compareceu a debates. A eleição foi vencida por ele já no primeiro turno.
Neste ano, apesar de a tendência ser Lula não participar dos debates do primeiro turno, aliados ressalvam que a decisão não está tomada. Além disso, poderão ser feitas avaliações caso a caso. Por exemplo: se Lula julgar que foi muito atacado em um debate do qual tenha se ausentado, pode decidir ir ao encontro seguinte para responder aos adversários.
A dúvida mais imediata é sobre o comparecimento do petista ao debate da Band, tradicionalmente o primeiro do período eleitoral. O evento está marcado para 16 de agosto.
Lula quer promover, também em 16 de agosto, o ato de lançamento de sua candidatura. Pode ser inviável participar dos dois, uma vez que debates televisionados demandam preparação prévia dos candidatos junto de suas equipes de comunicação. Além disso, é conveniente que o participante esteja descansado.
O presidente e seu grupo político pretendem realizar o ato de lançamento no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP). Havia dúvidas sobre a possibilidade por causa de um jogo marcado para a mesma data –São Bernardo contra Botafogo de Ribeirão Preto, pela série B do Campeonato Brasileiro.
Na última terça-feira (14), aliados informaram a Lula que a partida seria antecipada, abrindo caminho para o ato de lançamento. Fontes próximas da cúpula petista avaliam ainda ser possível o adiamento do evento político para permitir que o presidente participe do debate da Band, mas a direção do partido trabalha para ser mesmo realizado no dia 16.
O estádio da Vila Euclides é um dos locais mais significativos da trajetória política do presidente. No final dos anos 1970, quando começava a se tornar uma figura conhecida, Lula era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista e presidiu assembleias de grevistas no estádio.
A ideia do PT é que o lançamento da candidatura conte a história política de Lula, que, aos 80 anos, disputará sua última eleição. O partido agora se organiza para levar apoiadores suficientes para encher o estádio, uma operação mais difícil do que a de organizar atos políticos tradicionais.
O presidente da República também busca reforçar sua presença em São Paulo, estado que tem o eleitorado mais numeroso do país. Sua aliança local terá o ex-ministro Fernando Haddad (PT) como candidato a governador. Ele disputará contra o atual chefe do Executivo paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), favorito e com chances de vencer no primeiro turno.
Lula lidera as pesquisas eleitorais. Levantamento da Quaest divulgado quarta-feira (15) mostra o petista com 40% das intenções de voto para o primeiro turno, contra 28% de Flávio Bolsonaro. Para o segundo turno, o petista tem 45% contra 37% do provável adversário. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

