O advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Kassio Nunes Marques, acumulou R$ 27,7 milhões aplicados em fundos de investimentos, com pouco mais de dois anos de atuação profissional.
Documentos da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) enviados à CPI do Crime Organizado do Senado e obtidos pela Folha mostram um aumento do patrimônio de Kevin em 2025. Naquele ano, ele já tinha cerca de R$ 5 milhões em cotas de um fundo de renda fixa do Banco do Brasil. No segundo semestre, ele fez uma nova aplicação, de mais de R$ 22 milhões.
As informações financeiras não mostram irregularidade em relação às aplicações ou ao acúmulo de dinheiro pelo advogado.
O filho de Kassio tem 25 anos e foi aprovado no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em 29 de fevereiro de 2024. Ele abriu um escritório de advocacia seis meses depois e, em pouco mais de dois anos, começou a representar clientes de grande porte, como Refit e Grupo Petrópolis.
Procurado para comentar os dados, Kevin afirmou que os recursos estão devidamente declarados à Receita Federal tanto no Imposto de Renda de pessoa física quanto da pessoa jurídica. “Importante ressaltar que o advogado Kevin Marques não advoga no STF”, declarou sua assessoria.
Boa parte dos processos públicos em que Kevin figura como advogado está no TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região), onde o pai fez carreira como juiz, e no Tribunal de Justiça do Piauí, estado de origem da família. Há casos no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e em outros tribunais estaduais.
De acordo com os papéis da CVM, Kevin tinha R$ 5 milhões em um fundo de renda fixa do Banco do Brasil em 31 de agosto de 2025. Em 31 de dezembro, o valor subiu para R$ 5,3 milhões devido à valorização das cotas. Os dados revelam que houve uma nova aplicação, no período de 31 de agosto a 31 de dezembro do mesmo ano, no valor de R$ 22,4 milhões em outro fundo de renda fixa do BB.
O escritório de Kevin não quis responder qual é a origem dos recursos ou para quem ele advoga.
O debate sobre a atuação de parentes de ministros da corte ganhou força com a revelação de que a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, recebeu R$ 80 milhões (de um contrato de R$ 129 milhões) do Banco Master. No STF e no STJ, há quase 2.000 processos envolvendo parentes desses magistrados.
Kevin aparece como advogado em 30 ações listadas na plataforma Escavador, que agrupa informações de processos judiciais. Os clientes são empresas do Piauí, estado de origem do ministro Kassio Nunes Marques, e têm atuação regional.
O Perfil da Advocacia publicado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) em abril de 2024 mostra que só 1% dos advogados com menos de três anos de formado ganha mais de 20 salários mínimos por mês, o que na época da pesquisa equivalia a R$ 26,4 mil. A maioria (86%) recebia até cinco salários mínimos (R$ 6.600).
Kevin foi contratado pela Refit, como noticiou o jornal O Globo, para atuar no TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região), onde Kassio era juiz até ser alçado ao STF em 2020. Ele mantém influência na corte até hoje.
Pouco depois de entrar no processo, no ano passado, Kevin conseguiu uma liminar a favor da Refit suspendendo a interdição da Refinaria de Manguinhos feita pela ANP (Agência Nacional do Petróleo).
O dono da Refit é o empresário Ricardo Magro, considerado o maior devedor de tributos do Brasil. Seu nome está na lista vermelha da Interpol por ser procurado para prisão no Brasil. Ele é investigado pela Polícia Federal por supostas fraudes tributárias. O caso corre no STF, onde não há registro da atuação de Kevin.
A Refit informou que não se pronunciaria sobre o assunto.
Kevin atua também em um processo do Grupo Petrópolis, dono da cerveja Itaipava, no TRF-1. A empresa é parte em 27 processos no tribunal e não tem nenhum caso no STF.
Ele não é o primeiro integrante da família de Kassio a atuar para a empresa. Karine, a irmã do magistrado, também já advogou para a companhia em um processo recheado de parentes de ministros do STF.
O Grupo Petrópolis foi procurado por meio de sua assessoria no último dia 25 e não respondeu aos questionamentos.
O filho de Kassio também prestou serviços para uma consultoria que foi contratada pelo Banco Master e pela JBS, maior empresa de proteína animal do mundo. A Consult Inteligência Tributária recebeu R$ 6,6 milhões do Master e R$ 11,3 milhões da JBS entre agosto de 2024 e julho de 2025.
O dono da Consult é sócio de Kevin num instituto de consultoria tributária. Relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) identificou transferências da empresa ao filho do ministro nesse período: entre 2024 e 2025, os repasses da Consult para o filho do ministro captados pelo Coaf foram de R$ 281,6 mil.
Quando o caso foi revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo, a consultoria afirmou que “prestou serviços de auditoria e consultoria tributária, além de desenvolvimento e implantação de sistemas destinados para fins de auditoria tributária desses grupos”.
Já Kevin afirmou que o valor pago pela Consult se refere a serviços de assessoria jurídica.
Naquele período, os donos da JBS participavam de uma arbitragem bilionária no STF com a Paper Excellence, da Indonésia, determinada por Kassio. A ação debatia a propriedade da Eldorado Celulose, dividida entre as duas empresas.
Em 2025, a família Batista, da JBS, conseguiu recomprar a participação da Paper Excellence, vencendo a disputa.
A JBS disse que atua em mais de 200 municípios em 19 estados do Brasil. “Como qualquer grande companhia que opera no ambiente tributário complexo do país, contrata consultorias especializadas para suporte técnico, entre elas a Consult Inteligência Tributária.”
“O pagamento realizado para esta empresa refere-se exclusivamente a serviços de consultoria e auditoria fiscal. Os serviços foram efetivamente prestados e devidamente documentados. A JBS não tem qualquer relação ou ingerência sobre eventuais terceiros contratados pela consultoria”, concluiu.
Em novembro do ano passado, o Master chegou a pedir que o inquérito sobre as supostas fraudes da instituição financeira ficasse com Kassio. O caso acabou sorteado para o ministro Dias Toffoli, que se declarou impedido em fevereiro deste ano. Atualmente, o relator é o ministro André Mendonça.
A reportagem procurou a assessoria de imprensa do Banco Master e o advogado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nos dias 24 e 26, mas não houve resposta até a conclusão deste texto.

