Quase um século separa a morte do senador americano George Vest e o nascimento do youtuber Paulo Figueiredo. Ainda assim, os dois concordam em ao menos uma coisa: mulheres não sabem votar.
Em 1887, em meio à pressão dos movimentos sufragistas, Vest expôs alguns motivos pelos quais acreditava que mulheres não deveriam participar do processo político. Em discurso no Senado, afirmou que elas “são essencialmente emocionais”.
“O que queremos neste país é evitar o sufrágio emocional, e o que precisamos é trazer mais lógica para os assuntos públicos e menos sentimento (…) Há reinos em que o coração deve reinar supremo. Esse reino pertence à mulher”, disse.
Esse argumento sem base científica, um dos principais utilizados para retardar o direito das mulheres ao voto, aparece outra vez, mais de 130 anos depois, no discurso de um dos principais influenciadores bolsonaristas.
Amigo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) e do senador Flávio Bolsonaro (PL), Figueiredo faz a ponte entre as direitas bolsonarista e trumpista. O neto do ditador João Figueiredo esteve, por exemplo, no encontro dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) com o presidente Donald Trump, no fim de maio.
Em meio à briga pública entre Flávio e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) —ela disse ter sido desrespeitada pelo enteado, que teria afirmado que ela não “entendia nada de política”—, Figueiredo publicou um vídeo no qual afirma que “mulher vota muito mal”, especialmente as solteiras.
“Acho, inclusive, Michelle, que você faz um desserviço às mulheres. As mulheres têm um estereótipo de não se darem bem na política porque não têm equilíbrio emocional, porque agem de forma emotiva, não racional. Eu acho que a Michelle acaba contribuindo com esse estereótipo.”
Nos dias posteriores à publicação do vídeo, Figueiredo não se dobrou às críticas e disse que mantinha suas afirmações.
Ele tentou, porém, se dissociar dos que argumentavam, como George Vest, que a alegada incapacidade das mulheres de votar tem a ver com a sua essência. “Nem sempre foi assim! Isso tem a ver com o avanço desta ideologia demoníaca feminista que está destruindo a vida das mulheres”, afirmou o influenciador.
O “gender gap”, como é chamado o menor apoio das mulheres aos partidos e candidaturas da direita, especialmente a radical, é tratado há décadas na literatura da ciência política.
Essa tendência, confirmada nas pesquisas eleitorais que mostram fragilidade de Flávio Bolsonaro entre o grupo, não se explica pela falta de capacidade das mulheres em exercer o voto, como o senador reconheceu nesta quarta-feira (1).
“Ele [Figueiredo] nunca poderia dizer que a culpa é das mulheres. Se as pesquisas mostram que tem muitas mulheres que não estão votando conosco, é falta de competência minha”, afirmou Flávio, quase uma semana após a publicação do vídeo do amigo.
O discurso de Figueiredo não é apenas uma expressão individual machista —ele se encaixa no contexto político do atual governo Trump.
O partido Democrata e organizações da sociedade civil têm alertado para o impacto que a legislação do “Save America”, patrocinada pelo partido Republicano e já aprovada na Câmara dos Deputados (agora parada no Senado), pode ter sobre o voto feminino.
Essa lei exige que, ao se registrarem para votar, os eleitores apresentem documentos para provar que são cidadãos americanos —mais comumente, o passaporte ou a certidão de nascimento. A legislação vai ao encontro das acusações de fraude eleitoral, nunca comprovadas, propagadas por Trump e seus aliados.
A organização Center for American Progress argumenta que metade dos americanos não têm um passaporte e que a ampla maioria das mulheres não poderia apresentar uma certidão válida.
Como mostrou uma pesquisa de 2023 do “Pew Research Center”, 79% das mulheres americanas que se casaram com homens adotaram o sobrenome do marido após o casamento —logo, elas não têm mais o nome indicado na certidão de nascimento e, a princípio, precisarão produzir uma nova documentação para votar, caso a lei passe no Congresso.
Nos últimos anos, influenciadores do “Make America Great Again”, o Maga, movimento que alçou Trump ao poder em 2016, e uma série de pastores fundamentalistas têm se oposto abertamente ao direito das mulheres ao voto. Com o deslocamento da janela de Overton (modelo criado por Joseph Overton para tratar do leque de ideias toleradas na esfera pública), afirmações como essa, antes inaceitáveis, agora, com a ascensão da extrema direita, passam a ser vocalizadas.
O supremacista branco Nick Fuentes, a quem Trump já recebeu para jantar em seu resort de Mar-a-Lago, na Flórida, é um deles. Em entrevista a um podcast, perguntado sobre quais direitos ele tiraria das mulheres, Fuentes respondeu: “Eu eliminaria o direito ao voto de muitas pessoas. Das mulheres, com certeza”.
Em entrevista à CNN em agosto do ano passado, pastores das igrejas Christ Church e Kings Cross Church defenderam a supressão da 19ª emenda da Constituição americana, que permitiu o voto feminino, e a adoção do voto familiar. O vídeo foi compartilhado pelo secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, com os dizeres “All of Christ for All of Life” (“Todo Cristo para toda a vida”), um slogan nacionalista cristão.
A experiência do voto familiar —ou seja, um único voto por núcleo familiar— foi adotada em raríssimas ocasiões no século 20, como em certas eleições locais durante a ditadura de António Salazar, em Portugal. Esse direito cabia ao chefe da família, que, segundo o Código Civil português de 1867, era o homem.
Missão
No Brasil contemporâneo, o voto familiar aparece no Livro Amarelo, cartilha ideológica do partido Missão, derivado do MBL. Como mostrou a Folha, a legenda tem se inspirado na ultradireita do Vale do Silício para se firmar como alternativa ao bolsonarismo.
No fascículo 6 do livro, Orlando Lima, uma das lideranças do grupo, escreve sobre “a proposta da chamada democracia familiar”. “Ao restaurar a família como célula política, não se pretende reviver o patriarcado arcaico, mas refundar o sujeito sobre uma base concreta de responsabilidade mútua, memória e herança.”
Para Orlando, o voto universal degradou a qualidade da decisão política, e o modelo familiar é “o ponto de partida para a reconstrução civilizacional do Brasil”.
Ele também defende outras mudanças que, na prática, acabariam com a democracia liberal no país. Por exemplo, a introdução de uma renda básica universal condicionada a uma cláusula essencial: “a renúncia voluntária ao direito de voto”. “Não se trata de punir os pobres, mas de libertá-los da chantagem política que os mantêm cativos.”
A Folha procurou Renan Santos, pré-candidato à Presidência pelo Missão, para questioná-lo sobre as propostas defendidas neste fascículo. “Isso não é uma proposta. São discussões e especulações sobre modelos de democracia. Tem que falar com o Orlando e os autores”, ele respondeu. “Eu não li todo o [fascículo] 6.”

