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Em defesa de José Maria de Almeida


razão para tal é que ao denunciar as políticas sistematicamente discriminatórias contra os palestinos, estaria colocando em risco os judeus.

Em primeiro lugar, qual a razão desta ofensiva contra destacados opositores da política do Estado de Israel contra os Palestinos?

O fundamental é que após o ataque do Hamas contra Israel em 2023, o Estado sionista (como ele próprio se declara) lançou uma ofensiva militar bárbara contra a Faixa de Gaza, que destruiu propositalmente toda a infraestrutura para a vida dos Palestinos que ali habitam.

O fundamental é que após o ataque do Hamas contra Israel em 2023, o Estado sionista (como ele próprio se declara) lançou uma ofensiva militar bárbara contra a Faixa de Gaza, que destruiu propositalmente toda a infraestrutura para a vida dos Palestinos que ali habitam. Mais de 70 mil mortos, em sua maioria crianças (além de um número bem maior de vítimas não contabilizadas.

Quando do ataque do Hamas a Israel, entre algumas das primeiras reações lúcidas esteve a do secretário-geral da ONU, António Guterres, que recordou o que corretamente denominou de o contexto em que ocorreu. Em primeiro lugar, em sua declaração de 24 de outubro de 2023 em reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, disse que o ataque do Hamas “não aconteceu no vácuo”, mas sim no contexto de 56 anos de ocupação sufocante, com a ocupação contínua de territórios e a expansão de colonatos.

De uma forma mais concreta, o veterano jornalista do jornal israelita Haaretz Gideon Levy declarou à imprensa: “[os habitantes de Gaza] foram colocados por Israel durante 17 anos em uma jaula, o que vocês queriam que eles fizessem?” (referindo-se ao facto de Gaza ser totalmente cercada e dominada por mar, ar e terra desde 2006 e de Israel controlar até as quantidades de calorias que entram na dieta dos Palestinos).

Mas, com a visão da História, é importante alargar o panorama que levou à situação atual:

O sionismo é uma ideologia (e depois uma corrente política e, depois da criação do Estado de Israel, a ideologia do Estado, em suas versões de “esquerda” e direita, como o atual primeiro-ministro Netanyahu.

A Palestina tem sido habitada desde há vários séculos pelos seus habitantes originários, os árabes palestinos. A ideia do sionismo era que, para escapar do antissemitismo, os judeus deveriam emigrar para a Palestina, que supostamente estaria vazia (Daí o bordão sionista, “uma terra sem povo para um povo sem terra”.)

Por supostas razões bíblicas reivindicavam o direito de implantar seu Estado. Para facilitar a obra começaram uma ação de organização dos imigrantes em uma estrutura separada dos habitantes locais. Sob a proteção do Reino Unido, que de 1921 em diante tinha o Mandato da Liga das Nações para a Palestina e em 1948, sentiram que havia uma oportunidade única pelo contexto do Holocausto. Em uma fatídica sessão, a Assembleia da recentemente criada ONU aprovou a partilha do território, outorgando 55% (e as melhores terras) para o 1/3 de judeus que lá moravam. Por alguns anos essa votação foi possível na ONU, antes da entrada de dezenas de novos países com a libertação nacional em particular na África. Assim que foi votada a criação de Israel, os sionistas, então majoritariamente de “esquerda” (as aspas se devem a que não faz sentido um colonialista se declarar de esquerda e ser adepto de um projeto de um colonialismo de povoamento, em que além de dominarem a população local e o território cobiçado, queriam criar uma nova pátria). Não é um caso único, apesar das especificidades, mas os exemplos dos EUA, da Austrália e da Argélia oferecem formas similares, mas não, obviamente, idênticas.

as milícias sionistas realizaram a limpeza étnica de mais de 2/3 da população local e dominaram 78% do território da Palestina. E incumpriram uma resolução da ONU nunca revogada em que se declarava o direito absoluto a voltarem para suas terras e propriedades.

A criação do novo Estado deu a grande oportunidade: as milícias sionistas realizaram a limpeza étnica de mais de 2/3 da população local e dominaram 78% do território da Palestina. E incumpriram uma resolução da ONU nunca revogada em que se declarava o direito absoluto a voltarem para suas terras e propriedades. Gaza é composta em 80% por refugiados palestinos. Após muitos anos negando esse facto, já começou a se formar um novo consenso de que houve uma expulsão planejada pelos sionistas. Devemos essa versão aos ativistas e historiadores palestinos e, depois, aos chamados “novos historiadores” em Israel, como Ilan Pappe e Avi Schlaim, que dissecaram o tema, inclusive em livros traduzidos para português.

O segundo passo foi o de moldar o novo Estado: ele seria um estado “judaico”, sem dar direitos iguais aos Palestinos. Foi votada uma “lei do retorno”, que permitia a qualquer judeu do mundo migrar para Israel, ao mesmo tempo que os mais de 750 mil palestinos expulsos poderiam fazê-lo1. Nos primeiros 19 anos estes foram dirigidos por um governo militar. Em 1956, Israel se configurou como o aliado mais fiável do imperialismo americano e ocidental no Oriente Médio. Um exemplo gritante disso foi a guerra conjunta com Inglaterra e França em 1956 contra o Egito de Gamal Abdel Nasser, que havia nacionalizado o canal de Suez. Em 1967, Israel se aproveita do erro de cálculo de Nasser de ameaçar Israel sem ter condições para tal e, como o apoio decisivo dos EUA, ocupam toda a Palestina. Desde então, os habitantes desses territórios vivem sob um regime abertamente discriminante: centenas de milhares de colonos ilegais se estabeleceram especialmente na Cisjordânia e em Jerusalém, destruindo qualquer possiblidade de uma solução injusta de dois Estados. Injusta porque permite que Israel fique com a maioria da Palestina, perante um Estado palestino desarmado e incapaz de funcionar.

Pouco a pouco, o regime interno de Israel em relação aos Palestinos foi se tornando cada vez mais cruel. São os tempos do Muro da Vergonha na Cisjordânia, do bloqueio total de Gaza e da opressão cada vez maior dos palestinos de Israel propriamente. Exemplos disso são a lei da nacionalidade que decreta que o direito de autodeterminação em Israel é privativo dos judeus, que o único idioma oficial é o hebraico e que os colonatos judaicos nos territórios ocupados são um valor nacional e que deve ser promovido. Na verdade, codifica uma situação já existente, mas sempre é importante a formalização.

E isso nos leva às razões da perseguição e condenação de Zé Maria.

Em maio de 2016, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto (IHRA em sua sigla em inglês) adotou uma definição de antissemitismo que, infelizmente, foi adotada por muitos países e que declara que as críticas a Israel são uma forma de antissemitismo. Esta definição está sendo utilizada para impedir a ação e atemorizar os ativistas pró-palestinos.

Nesse contexto, surgem em muitos países causas judiciais e perseguição policial contra os que se solidarizam com a Palestina. Por exemplo, Jeremy Corbin, que foi ostracizado no Partido Trabalhista na Inglaterra com a falsa acusação de conivência com ações antissemitas.

No Brasil, já tivemos dois casos muito comentados, o ataque a Milton Temer e Breno Altman, ambos terminados sem condenação.

A agressão israelense a Gaza mudou muito o cenário da solidariedade com os Palestinos, em particular na Europa e nos EUA. Imensas manifestações na Inglaterra, greves gerais na Itália e na Espanha e um grande movimento nos EUA, inclusive pela maior comunidade judaica fora de Israel, em particular entre os jovens.

Tudo isso torna o sionismo mais agressivo. Dois exemplos recentes demonstram isso:

  • o sequestro da flotilha Global Sumud de ajuda humanitária para Gaza em águas internacionais próximas à Grécia, onde foram submetidos a violência extrema por 40 horas. Foram entregues ao Governo grego, onde foram submetidos à ação da polícia que quer deportá-los. Mais: dois dos ativistas foram levados para interrogatório em masmorras sionistas, Thiago Ávila (brasileiro) e Saif Abukeshekd, de origem palestina e que conta com nacionalidade espanhola e sueca, o que mostra a agressividade com qualquer movimento de solidariedade. Em resposta, já houve dezenas de manifestações na Itália contra esta violência.
  • A segunda mostra de agressividade inaudita mesmo para os sionistas é a lei que permite que haja uma diferenciação na punição de supostos crimes de sangue realizados por palestinos dentro de Israel e nos territórios palestinos ocupados, destinado a pena de morte por enforcamento. Esse é um retrato do apartheid a que são submetidos os palestinos. Essa agressividade derivada da efetividade do apoio mundial à solidariedade contra o apartheid e o genocídio é o que explica que agora busquem condenar Zé Maria por um crime que não cometeu.

É importante entender de quem estamos falando. Conheço o Zé Maria desde 1977, quando ele tinha 18 anos e fora preso por um mês por distribuir um panfleto convocando o Primeiro de Maio e foi submetido a fortes torturas que só cessaram quando o movimento estudantil saiu às ruas pela primeira vez desde 1968 e conquistou sua libertação e dos seus companheiros/as presos/s.

Depois disso, Zé Maria se transformou em parte da história da luta contra a ditadura e do movimento operário. Em 1979, no Congresso estadual do estado de São Paulo, na cidade de Lins, foi ele quem apresentou a moção aprovada por só um voto contrário, de um dirigente do PCB, para a criação de um partido de trabalhadores, que foi adotada pelo chamado Novo Sindicalismo, liderado por Lula e outros dirigentes.

Seguindo sua peregrinação militante, Zé Maria era um dos dirigentes da Oposição Sindical e se tornou dirigente dos metalúrgicos de Belo Horizonte e dirigiu a greve com ocupação e gestão operária por 10 dias (para evitar danos à maquinaria). E de lá para cá seguiu militando no movimento dos trabalhadores e desde alguns anos como dirigente do PSTU.

Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.

Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.

Como judeu, antissionista desde 1973, considero esta luta fundamental e que não tem nada a ver com antissemitismo, nem racismo, porque não ataca os judeus por serem judeus, mas os sionistas, sejam eles judeus ou parte da imensa legião de cristãos sionistas, embora a sentença tenha ignorado este facto, argumentando equivocadamente que ele fez ataques aos judeus do mundo. E aceita a alegação de que Israel fala pelos judeus. Eu e muitos outros judeus dizemos sempre: “Não em nosso nome.”

1 A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução 194, ditando que “os refugiados que desejem retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos devem ser autorizados a fazê-lo na data mais cedo possível, e que uma compensação deve ser paga pelos bens daqueles que optam por não retornar e pela perda ou dano à propriedade que, de acordo com os princípios do direito internacional ou da equidade, deve ser cumprida pelos governos ou autoridades responsáveis.”

Publicado originalmente em Jornal maio





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