Janeese Lewis George, 38 anos, mulher, negra, ativista antirracista, advogada e reconhecidamente socialista democrática será a candidata do Partido Democrata para a prefeitura (“Mayor”) do Distrito Federal estadunidense. Atualmente, ela é Conselheira (uma espécie de vereadora), representando uma das regiões de Washington DC, Capital Federal dos EUA.
No dia 16 de junho, Janeese venceu as prévias internas dos democratas, e será a candidata do partido nas eleições marcadas para o dia 3 de novembro deste ano, mesmo dia das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA (Midterm).
vencer as prévias democratas costuma significar uma grande vantagem na eleição geral. Caso seja eleita prefeita, Janeese Lewis George se consolidará como uma das principais lideranças socialistas democráticas a ocupar um cargo executivo de grande relevância nos Estados Unidos.
Washington D.C. é um dos maiores redutos eleitorais do Partido Democrata. Por isso, vencer as prévias democratas costuma significar uma grande vantagem na eleição geral. Caso seja eleita prefeita, Janeese Lewis George se consolidará como uma das principais lideranças socialistas democráticas a ocupar um cargo executivo de grande relevância nos Estados Unidos.
Sua vitória expressa muito mais do que uma grande mudança política na capital estadunidense. Ela representa mais um exemplo do crescimento político que vem experimentando uma corrente organizada da esquerda, o Democratic Socialists of America (DSA), que, nos últimos anos, conquistou espaço principalmente em câmaras municipais, legislativos estaduais e no Congresso.
Seu crescimento vem na esteira da vitória histórica que o DSA obteve na Prefeitura de Nova York, elegendo Zohran Mamdani, em novembro do ano passado. A proximidade política entre Janeese e Mamdani é muito evidente.
Sua trajetória política está ligada às lutas por moradia, justiça racial, transporte público, direitos trabalhistas e combate ao racismo e à desigualdade social. Entre suas propostas estão ampliar a oferta de habitação popular, fortalecer sindicatos, elevar salários, investir em transporte público, reduzir o custo de vida e ampliar serviços públicos municipais. Também defende maior autonomia para Washington D.C. e apoia que o Distrito de Columbia se torne um estado da federação.
Janeese Lewis George é integrante do Democratic Socialists of America, organização que reúne hoje dezenas de milhares de filiados. O DSA não constitui um partido político independente. Em vez disso, atua principalmente dentro do Partido Democrata, apoiando candidatos identificados com o socialismo democrático e com políticas progressistas.
Janeese Lewis George é integrante do Democratic Socialists of America, organização que reúne hoje dezenas de milhares de filiados. O DSA não constitui um partido político independente. Em vez disso, atua principalmente dentro do Partido Democrata, apoiando candidatos identificados com o socialismo democrático e com políticas progressistas.
Nesse campo político de esquerda ampla, não apenas de filiados ao DSA, encontram-se algumas das figuras progressistas mais conhecidas nos EUA: como a deputada federal Alexandria Ocasio-Cortez, que tornou-se um dos principais rostos da defesa da saúde pública universal, ensino superior mais acessível, fortalecimento dos direitos trabalhistas e uma agenda ambiental desafiadora; e o senador Bernie Sanders, embora seja formalmente independente e não integrante do DSA, é uma das maiores referências políticas para muitos militantes da organização e recebeu amplo apoio de seus membros em suas campanhas presidenciais, internas aos democratas.
Nos últimos anos, candidatos ligados ao DSA obtiveram vitórias importantes em diferentes níveis de governo. A vitória de maior destaque e importância é a de Mamdani na Prefeitura de Nova York, mas a organização ampliou também sua presença em outras cidades, como Chicago, Minneapolis, Seattle e outras localidades, elegendo vereadores, parlamentares estaduais e representantes ao Congresso. Ainda assim, a conquista de prefeituras de grandes cidades é bem menos comum, o que torna a candidatura de Janeese Lewis George particularmente significativa.
O crescimento do DSA, entretanto, continua cercado de desafios. Embora suas propostas tenham conquistado apoio entre parte do eleitorado, especialmente jovem, urbano e sindicalizado, setores mais à direita dos democratas, ligados ao “establishment” do partido, frequentemente boicotam e atacam às posições da organização. E é essa disputa interna que influencia a definição das candidaturas democratas em diferentes estados e nacionalmente.
Trump já ameaça uma possível vitória de Janeese
Por de trás da ameaça genérica de não reconhecer às eleições, vem uma outra ameaça bem mais concreta do trumpismo. Como Washington DC é um Distrito Federal, o Congresso dos EUA tem amplos poderes para intervir e limitar as funções e atribuições de um governo local. Trump quer usar sua atual maioria no Congresso para tentar inviabilizar um possível governo do DSA, restringindo a autonomia do poder local no Distrito Federal.
Trump não está desatento à ascensão de Janeese e dos socialistas democráticos em Washington DC. Usando sua rede social, ele já chamou a candidata democrata de “comunista” e que fará de tudo para vê-la derrotada nas eleições de novembro próximo.
Por de trás da ameaça genérica de não reconhecer às eleições, vem uma outra ameaça bem mais concreta do trumpismo. Como Washington DC é um Distrito Federal, o Congresso dos EUA tem amplos poderes para intervir e limitar as funções e atribuições de um governo local. Trump quer usar sua atual maioria no Congresso para tentar inviabilizar um possível governo do DSA, restringindo a autonomia do poder local no Distrito Federal.
Portanto, além de lutar muito para ganhar as eleições da prefeitura, o DSA vai precisar defender também o respeito absoluto ao resultado desta eleição, que expressará a vontade democrática dos eleitores.
DSA: uma forte expressão política do anti-trumpismo
Outro elemento central da identidade política do DSA é sua oposição veemente a Donald Trump e ao chamado MAGA, movimento trumpista de extrema direita.
A organização considera que políticas de restrição a direitos civis, imigração, meio ambiente e direitos trabalhistas aprofundam desigualdades e ameaçam instituições democráticas. Por isso, seus militantes têm participado ativamente de campanhas eleitorais e mobilizações contra Trump e candidatos alinhados ao Partido Republicano
A organização considera que políticas de restrição a direitos civis, imigração, meio ambiente e direitos trabalhistas aprofundam desigualdades e ameaçam instituições democráticas. Por isso, seus militantes têm participado ativamente de campanhas eleitorais e mobilizações contra Trump e candidatos alinhados ao Partido Republicano. Com destaque para o mais importante e expressivo movimento de rua contra Trump, ocorrido recentemente, o “No Kings”.
Diante do crescimento da organização, uma questão passou a ser debatida entre analistas políticos: o DSA deveria lançar um candidato próprio nas próximas prévias presidenciais do Partido Democrata? Não existe, até o momento, uma decisão oficial nesse sentido. Há dirigentes e militantes que defendem a construção de uma candidatura nitidamente identificada com o socialismo democrático. Outros avaliam que a prioridade deve ser ampliar a influência da organização em governos locais, legislativos estaduais e no Congresso antes de disputar a indicação presidencial.
Independentemente do caminho escolhido, o avanço do DSA demonstra que a esquerda organizada conquistou um espaço mais visível na política estadunidense do que possuía há uma década. A candidatura de Janeese Lewis George, portanto, pode ser compreendida como parte desse processo mais amplo de reorganização deste campo progressista, atualmente dentro do Partido Democrata, que se reivindica socialista democrático, em um cenário marcado pela polarização política e pela disputa sobre os rumos sociais e econômicos dos Estados Unidos.
É fundamental que a esquerda e os movimentos sociais brasileiro acompanhem o desfecho de mais estas importantes eleições regionais nos EUA. Que se insere na disputa política mais geral das eleições legislativas estadunidenses de novembro, que podem limitar – esperamos muito por isso – pelo menos parcialmente, os atuais poderes de Trump à frente da Casa Branca.

