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Do asfalto às urnas


“Salve, irmão, esse é dos nossos!”, saúda um rapaz de bicicleta, com uma bag vermelha nas costas, ao reconhecer JR Freitas na rua, enquanto estaciona a moto. Há poucos anos, Elias Pereira Freitas da Silva Júnior era apenas mais um trabalhador anônimo. Ganhou uma legião de seguidores ao expor nas redes sociais as precárias condições de trabalho dos motofretistas e apontar contradições no discurso da extrema-direita. Depois de liderar grandes paralisações dos entregadores de aplicativo e dividir o palanque com Lula no mês passado, durante o lançamento de um programa de crédito para a categoria, pretende disputar uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo pelo PSOL. Ainda um neófito na política partidária, JR demonstra não se intimidar facilmente. Recentemente, travou uma batalha judicial com Renan Santos, líder do MBL e pré-candidato à Presidência da República pelo partido Missão, na qual já obteve duas sentenças favoráveis.

Santos tentou censurar publicações que reproduziam trechos de um Boletim de Ocorrência no qual foi acusado de assédio por uma mulher. A Justiça decidiu, porém, manter as postagens no ar. “A informação já era pública, eu apenas resgatei”, diz JR Freitas, antes de insinuar que guarda parte da munição. “Eles sabem que eu sei muito mais, por isso fazem assédio jurídico contra mim.” Seus embates públicos com influenciadores da direita em podcasts, assim como seus vídeos de denúncia, tornam-se virais.

Longe dos holofotes, ele organiza a luta dos mais de 500 mil entregadores de aplicativo que atuam em todo o País. JR integra o Grupo de Trabalho criado pelo governo federal para propor melhores condições laborais à categoria e participa da elaboração do Projeto de Lei 2479/25, que regulamenta a profissão. Viagens a Brasília, reuniões constantes com o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, e convites para entrevistas já fazem parte da rotina do motoboy que, há mais de 20 anos, enfrenta o trânsito da capital paulista para ganhar a vida.

“Nenhum entregador acha que vai ficar rico trabalhando 14 horas por dia sobre uma moto. Isso é papo de coach”

A aprovação do PL será a prioridade após as eleições, explica JR. O texto prevê uma taxa mínima de 10 reais por corrida de até 4 quilômetros para motoboys, 3 reais para ciclistas e 2,50 por quilômetro adicional, além de exigir transparência algorítmica dos aplicativos. “Hoje, as empresas dizem que o porcentual cobrado é de 30%, mas às vezes chega a 50%. O entregador nunca sabe quanto vai ganhar.”

A batalha, acrescenta JR, também revelou quem buscava apenas promoção pessoal. “O vereador Lucas Pavanato andou por aí dizendo que defendia os motoboys, mas, quando falamos em um piso maior, ficou do lado das empresas e espalhou na internet que o preço aumentaria para o consumidor.” Hoje, entregadores de moto recebem uma taxa mínima de 7,50 reai­s por corrida. Ou seja, o aumento reivindicado é de 2,50, e deveria ser absorvido pelas plataformas, “que já lucram muito”.

Foi durante a pandemia que JR Freitas mudou sua forma de enxergar a realidade. Até então, nos intervalos entre as corridas, compunha versos de rap. Integrante do grupo Rapa da Godoy, chegou a fazer turnê com os Racionais MC’s e gravar músicas com Mano Brown. “Era ­motoboy de segunda a sexta e, no fim de semana, um artista”, recorda. Pelo hip-hop adquiriu consciência social e racial. Considerava-se, porém, um “antissistema”.

Filho de uma diarista e de um dono de “barzinho de quebrada”, foi o único dos três irmãos a concluir o Ensino Médio. Sem perspectivas profissionais no periférico bairro do Capão Redondo, precisou assumir a casa após a morte do pai, em 2002. “Procurei emprego nos classificados de jornal, e o que mais tinha era vaga de motoboy.” Aos 19 anos, sem saber pilotar, vendeu a televisão da família e alguns eletrodomésticos para tirar a habilitação e comprou uma motocicleta em prestações.

Na correria do trânsito, viu a profissão se transformar com a revolução tecnológica. Para pior, avalia. “Antes, tinha mais garantia e transparência.” Em 2020, com a esposa demitida após o nascimento dos gêmeos e recém-saído de uma internação de mais de 15 dias por Covid-19, enfrentava dificuldades financeiras e indignou-se com a condução da crise sanitária pelo governo. “Via Bolsonaro desdenhar das mortes por Covid, e as decisões dele interferiam muito na minha vida, porque a situação estava no limite. Ali entendi que quem conhece a quebrada também tem de estar na política.”

Batalha judicial. Renan Santos, do MBL, tentou censurar publicações do motoboy – Imagem: Redes Sociais/Missão

Por meio de grupos de WhatsApp, aproximou-se de Paulo Galo, protagonista do histórico Breque dos Apps, em 2020. A paralisação nacional marcou a emergência de um movimento que saía do asfalto para reivindicar melhores condições de trabalho. “Na pandemia, ajudamos a salvar vidas. Quem buscava remédio controlado na farmácia éramos nós. À época, nos chamavam de ‘anjos da rua’, mas o anjo não tinha máscara nem álcool em gel.”

A precariedade laboral levou JR Freitas a perceber que não enfrentava um problema individual, mas uma questão coletiva. “Um dia, enquanto esperava por uma corrida no aplicativo, vi no Instagram o anúncio de um reality show de formação política, que oferecia bolsa de estudos aos participantes. Fiz inscrição e fui selecionado.” O programa, exibido em 2021 pelo canal do ex-governador Márcio França no YouTube, abriu caminho para o curso de Tecnologia em Gestão Pública na Faculdade Miguel Arraes. “Se eu queria entrar na política, precisava me preparar.”

Depois de liderar sete paralisações em 2025, uniu-se ao Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos. JR usa as redes sociais para expor políticos e influenciadores que defendem a precarização do trabalho sob um discurso de exaltação do empreendedorismo e do esforço individual­. “Não posso julgar o entregador que se sente conectado com a extrema-direita, porque muitos se identificam com pautas conservadoras. Mas, quando a questão é sobrevivência, a conversa é outra. O mesmo cara que se diz de direita faz greve”, comenta. Para JR, a solidariedade entre os trabalhadores supera as diferenças políticas. “Quando alguém sofre um acidente, ninguém pergunta se é de direita ou de esquerda. É um dos nossos.” Nesses casos, é comum a organização de vaquinhas para ajudar as vítimas e suas famílias.

“Nenhum entregador realmente acredita ser empreendedor ou que ficará rico trabalhando 14 horas por dia sobre uma moto. Isso é papo de coach. O que atrai é a flexibilidade do trabalho, porque o tempo é o nosso maior ativo”, diz. Entre um emprego CLT com salário baixo e a liberdade­ de definir a própria jornada, a segunda opção lhe parece mais atraente. “Como é bom sair de casa e já ligar o aplicativo, sem precisar passar duas horas no ônibus para ir ao trabalho e outras duas para voltar.” •

Publicado na edição n° 1421 de CartaCapital, em 15 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Do asfalto às urnas’





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