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Lar da maior comunidade brasileira na Europa, com aproximadamente 500 mil pessoas, Portugal tem deixado de ser o destino favorito de imigrantes que saem do Brasil. Em meio a dúvidas sobre as políticas de imigração, as dificuldades relacionadas à combinação insustentável de baixos salários e altos preços de aluguel, assim como a crescente hostilidade contra estrangeiros, muitos estão abandonando a Terra de Camões pela nação vizinha: a Espanha.
Segundo dados do Consulado do Brasil em Madri, a comunidade de brasileiros que vivia oficialmente na Espanha em 2025 era de 195 mil pessoas, um aumento de 25% em relação a três anos antes — e a tendência é que esse número continue crescendo. Apenas entre fevereiro e abril deste ano, o Instituto Nacional de Estatística da Espanha estima que 6,3 mil brasileiros tenham se mudado para o território espanhol. Caso esse ritmo se mantenha ao longo de 12 meses, o fluxo pode ultrapassar 25 mil pessoas.
A intensificação ocorre no momento em que o cerco à imigração começa a se fechar em Portugal. Depois de anos operando em um sistema “aberto”, que facilitava a regularização para os estrangeiros que conseguissem emprego, Lisboa aprovou reformas que mudam todo o panorama e planejamento para aqueles que buscam construir uma nova vida no país.
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Fim do sonho português
Duas novas legislações, a Lei dos Estrangeiros de 2025 e a Lei da Nacionalidade de 2026, mudaram totalmente a forma de planejamento de possíveis imigrantes. Agora não é mais possível entrar como turista e se regularizar no país posteriormente, o prazo para obtenção de cidadania aumentou de 5 para 7 anos e as regras de reagrupamento familiar foram endurecidas.
Em meio a tudo isso, pesa também o colapso dos serviços para estrangeiros no país, com a controversa Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) sendo alvo de muitas críticas por parte de brasileiros devido à lentidão dos processos de regularização.
“Temos todas as condições necessárias para renovar o visto, e o visto simplesmente não é renovado”, desabafa uma brasileira, que preferiu não se identificar. “O órgão de imigração daqui não funciona como nos outros lugares”, diz.
Além disso, o cenário econômico e habitacional em Portugal é menos favorável do que o de outras nações da União Europeia. De acordo com dados do Eurostat, o salário mínimo do país, atualmente na casa dos 920 euros, ocupa a 12ª posição no ranking do bloco e está 146 euros abaixo da média europeia. A esse quadro se soma a alta no preço dos arrendamentos — termo jurídico equivalente ao aluguel, no Brasil —, que subiram 17,5% no último semestre de 2025.
Perspectiva agradável
Contrastando com o cenário visto em Portugal, a Espanha tem se mostrado um destino mais favorável. Governada pelo socialista Pedro Sánchez desde 2018, Madri vai na contramão de parte da União Europeia ao adotar medidas de incentivo à imigração. Atualmente, a legislação do país permite que cidadãos ibero-americanos, aqueles nascidos em países de colonização portuguesa ou espanhola, solicitem a cidadania após apenas dois anos de residência legal na Espanha.
Os salários também aparecem como um atrativo de destaque. Na Espanha, o valor mínimo recebido pelos trabalhadores é de 1.221 euros mensais, mais de 300 euros acima do piso pago em Portugal. “Em Portugal, sempre víamos empresas querendo extrair o máximo de seus funcionários, mas em poucos momentos aumentando ou melhorando os ganhos deles. E, enquanto isso, a Espanha, dá a oportunidade de retribuir, de remunerar melhor os brasileiros”, diz o pintor automotivo Alexandre Vilarim, que se mudou para Alcázar de San Juan.
“Aqui percebemos que os brasileiros que trabalham diretamente com as empresas espanholas têm um ganho financeiramente melhor do que em Portugal, cerca de três, quatro vezes maior”, completa Vilarim.
A hostilidade contra imigrantes também parece menos disseminada no país. De acordo com um levantamento do instituto público espanhol de pesquisas de opinião, apenas 14% dos espanhóis apontam a imigração como um dos principais problemas nacionais.

