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Com a popularidade em baixa e enroscos em série, Trump tenta criar fatos novos que o favoreçam


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Como não podia deixar de ser, Donald Trump está a toda com os preparativos para o 4 de Julho, dia em que a independência dos Estados Unidos faz 250 anos, imbuído do propósito de transformar a data em uma exaltação patriótica bem ao seu estilo megalômano. Ele promete uma celebração como nunca se viu: a queima de fogos que tradicionalmente encerra o feriado, diz, será a maior de todos os tempos, cinquenta vezes mais grandiosa do que o usual. Ouvindo os detalhes da festa nem parece que Trump está atravessando o mais áspero momento deste segundo mandato. Sua popularidade, patinando em 33%, crava um recorde negativo após o outro, puxada para baixo pelo enrosco que se tornou o conflito no Irã que ele próprio desencadeou. Pior: tudo isso ocorre justamente quando batem à porta, logo ali em novembro, as eleições de meio de mandato, aquelas que definem a maioria, crucial para a Casa Branca, na Câmara e no Senado.

ABRE E FECHA - Estreito de Ormuz: moeda de troca dos iranianos está no centro das discussões
ABRE E FECHA – Estreito de Ormuz: moeda de troca dos iranianos está no centro das discussões (Majid Saeedi/Getty Images)

Para tentar virar o jogo a seu favor, Trump não tem outra saída senão criar rapidamente fatos novos que ecoem positivamente no eleitorado que anda torcendo o nariz para ele. E resolver o conflito no Oriente Médio, que provocou tremores nos mercados globais e castiga o bolso dos americanos, está na ordem do dia. Mas é tarefa das mais espinhosas, uma vez que os aiatolás não têm demonstrado disposição em ceder em tópicos nevrálgicos para um acordo que não soe demasiado generoso à nação persa. O aceno em direção a um desfecho, feito nos últimos dias tanto por Washington como por Teerã, embora cheio de idas e vindas, colheu até agora uma modesta queda no preço do petróleo, naturalmente sublinhada pelo governo.

Em outra frente, Trump aperta o cerco a Cuba: recém indiciou o ex-presidente Raúl Castro e despachou, no último dia 21, navios de guerra para as bandas do Caribe com a intenção de asfixiar a ilha, mergulhada em pobreza. A aposta é despertar a simpatia em especial dos hispânicos, contrários ao regime comunista em vigor. “Trump precisa achar caminhos para sair da crise que o ronda e não tem tempo a perder”, avalia a especialista Laurel Rapp, do think tank Chatham House.

À DERIVA - Havana: o cerco dos EUA aperta na ilha, mergulhada em pobreza
À DERIVA - Havana: o cerco dos EUA aperta na ilha, mergulhada em pobreza (Yamil Lage/AFP)
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São todas estratégias envoltas em grandes incertezas, a começar pelo conflito no Irã. Após um fim de semana repleto de sinais de parte a parte de que um entendimento estaria no horizonte, com direito a um Trump em versão mais sóbria se referindo às conversas que avançavam como “construtivas”, veio um surpreendente ataque das Forças Armadas contra embarcações da Guarda Revolucionária Islâmica, na segunda-feira, filme que se repetiu na quinta 28. Ambos os episódios, classificados pela Casa Branca como “atos de defesa”, abalaram as costuras diplomáticas em curso, despertando a fúria do Irã, que disparou contra um caça F-35, uma base aérea americana no Kuwait e ameaçou retaliação maior. O ensaio de escalada, felizmente, parou por aí. Até para quem se debruça sobre o complexo tabuleiro geopolítico, os movimentos da gestão Trump vêm sendo difíceis de decodificar, mas há consenso de que o que os Estados Unidos queriam com os mísseis era dar demonstração de força, para então seguir as tratativas em patamar mais elevado. E elas continuam, mediadas pelo Paquistão e com apoio adicional do Catar, que recebeu negociadores iranianos no meio do fogo cruzado da semana. “Um acordo está ao alcance”, disse o secretário de Estado, Marco Rubio, no que Teerã pareceu de acordo, ao afirmar ser “baixa” a possibilidade da retomada de uma guerra aberta.

O que está à mesa não é um plano de paz amplo, mas um memorando de catorze pontos que estabeleceria as bases para negociações mais extensas e duradouras. O documento prevê a reabertura do estratégico Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo e gás consumidos no planeta, em um processo que levaria um mês até a Guarda Revolucionária retirar do mar as minas explosivas que plantou. A rota ficaria então livre para navios de todas as nacionalidades. Em contrapartida, a Marinha americana encerraria seu próprio bloqueio contra portos do Irã, e o cessar-fogo seria estendido por sessenta dias. Detalhe: isso tudo conduziria à exata situação pré-guerra. A mais importante questão em aberto começa a partir daí — que fim levará o programa nuclear iraniano, a principal razão de ser da guerra? Washington exige que os aiatolás se comprometam desde já a abrir mão de seu estoque de urânio enriquecido, assunto que eles preferem deixar para depois. Outro ponto que atravanca as discussões é uma condição do Irã que os americanos têm previsível dificuldade de engolir — a liberação de fundos congelados nos Estados Unidos e o imediato alívio das sanções que corroem a economia nacional. “O acordo só será bem-sucedido se ambos conseguirem reivindicar algum tipo de vitória”, analisa o especialista Trita Parsi, do think tank Quincy Institute.

MODO CAMPANHA - Rubio: incentivo aos cubanos para pressionarem o regime
MODO CAMPANHA - Rubio: incentivo aos cubanos para pressionarem o regime (Julia Demaree Nikhinson/AFP)
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Como nada é trivial nesse explosivo canto do planeta, há ainda um complicado nó a desatar no Líbano, onde Israel trava uma guerra à parte contra o Hezbollah, milícia xiita financiada por Teerã. Os aiatolás incluem o fim das hostilidades nessa frente como uma das condições para a paz, o que para Trump não é problema. Falta ainda combinar isso com seu aliado Benjamin Netanyahu, cujo plano é enveredar em direção oposta — justamente pisar no acelerador com as bombas, que, aliás, nunca deram trégua, apesar do cessar-­fogo selado no papel em abril. Ao contrário de seu par americano, Netanyahu, que está sob risco de perder a cadeira antes do previsto, uma vez que sua coalizão, sustentada pela extrema direita, rachou e as eleições de outubro podem ser antecipadas, tem interesse no prolongamento dos combates, bem vistos pela maioria da população.

O primeiro-ministro israelense tem ventilado que o acordo em debate não aborda questões existenciais para Israel: varrer de vez do mapa o programa nuclear e pôr um freio ao desenvolvimento de mísseis balísticos no Irã, dois objetivos que estavam no pacote para justificar a intervenção militar no país persa em 28 de fevereiro, por ora postergados para futuras conversas. Foram muitos os telefonemas de Netanyahu a Trump que não deram em nada — ele chegou a admitir nos bastidores que havia perdido a capacidade de influenciar o americano. “Netanyahu foi escanteado, mas não pode implodir as negociações pois depende do apoio militar dos Estados Unidos”, observa Ludmila Culpi, professora de relações internacionais da PUCPR. Com a temperatura já nas alturas, Trump fez ferver ainda mais o caldeirão no Oriente Médio ao trazer à baila seu velho desejo de que Israel normalize as relações com diversas nações árabes, como a Arábia Saudita, no escopo dos Acordos de Abraão. A iniciativa poderia ser alojada no escaninho da “agenda positiva”.

NA MIRA - Raúl Castro: indiciado por homicídio com três décadas de atraso
NA MIRA - Raúl Castro: indiciado por homicídio com três décadas de atraso (Yamil Lage/AFP)
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Em paralelo, o governo Trump pesa o custo-benefício de uma intervenção em Cuba. Após meses de sanções turbinadas e um embargo que esgotou ali as reservas de petróleo, o departamento de Justiça formalizou acusações contra Raúl Castro, de 94 anos, cujo falecido irmão, Fidel, liderou a revolução que instaurou o comunismo na ilha, na década de 1960. Ele foi imputado pelo homicídio de quatro pilotos por ter dado a ordem como ministro da Defesa, três décadas atrás, para abater duas aeronaves de uma organização formada por exilados cubanos em Miami. As especulações, devidamente alimentadas pelo próprio Trump, são de que ele cogita uma operação militar à la Venezuela, quando apeou do poder o ex-ditador Nicolás Maduro, que aguarda julgamento em Nova York. Embora a situação em Havana seja outra — o presidente não é Castro, mas Miguel Díaz-Canel —, ainda passam por ele todas as decisões que importam. Sua captura poderia assim descortinar uma janela de oportunidade para Trump, que já disse várias vezes mirar uma abertura econômica e política do regime, e fazê-lo ganhar pontos com isso. Depois de bradar “Cuba é a próxima”, nesta semana ele voltou ao tema: “Posso fazer o que quiser lá”.

Um personagem de relevo nesta trama que se desenha é o secretário Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, para quem o tópico transborda para o campo pessoal. Pois ele surgiu em rara mensagem em espanhol instando os habitantes da ilha a aumentarem, eles também, a pressão contra o “Estado sequestrado pela Gaesa”, o conglomerado empresarial controlado por militares, à frente de 40% do PIB. “Propomos uma nova Cuba, onde vocês, os cidadãos, e não só uma pequena elite, possam fazer negócios”, falou em tom de campanha.

AGENDA PRÓPRIA - Netanyahu: ao não recuar no Líbano, o premiê pode atrapalhar as costuras diplomáticas
AGENDA PRÓPRIA - Netanyahu: ao não recuar no Líbano, o premiê pode atrapalhar as costuras diplomáticas (Gil Cohen-Magen/AFP)
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Enquanto não toma uma decisão, a Casa Branca avalia que a intensificação do cerco à ilha pode galvanizar o eleitorado hispânico, que nutre aversão aos Castro e foi fundamental para guindar Trump de volta ao poder, mas anda desgostoso com o mandatário. “Uma incursão em Cuba também funcionaria como uma grande distração da confusão no Irã”, afirma a cientista política Denilde Holzhacker, da ESPM. Com tanto ainda em suspenso, Trump vem tentando (e conseguindo) emplacar candidatos republicanos à sua imagem e semelhança para disputar o tão aguardado pleito para o Congresso. Precisa, porém, combinar ainda com eleitorado, e logo. O tempo corre contra ele.

Publicado em VEJA de 29 de maio de 2026, edição nº 2997



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