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Meio posto de lado pelo inverno rigoroso do Hemisfério Norte, que dificulta operações bélicas, e pelo desvio das atenções do mundo — e de Donald Trump, senhor da guerra e da paz — para o Oriente Médio, o conflito entre Rússia e Ucrânia, que já dura quatro anos e meio, parecia estagnado. Não mais. Nas últimas semanas, as forças ucranianas desfecharam ataques aéreos de alcance inédito dentro da Rússia, em uma tentativa de mostrar que ainda dispõem de recursos para fazer frente ao invasor e assim abrir caminho para uma nova rodada de negociações — a última de que se tem notícia foi em fevereiro, na Suíça, sem resultado concreto. Moscou revidou bombardeando Kiev com intensidade nunca vista, mas dá sinais de que as seguidas investidas contra seu território estão, sim, sendo sentidas, uma novidade no embate entre uma das maiores potências militares do planeta e um vizinho mais fraco, mas teimoso como poucos.
Na véspera da reunião nos dias 7 e 8 da cúpula da Otan, principal aliança militar do Ocidente, na Turquia, com Trump presente, a Rússia lançou seu segundo grande ataque aéreo contra a capital ucraniana em menos de uma semana, com mísseis (balísticos, inclusive, mais difíceis de interceptar) e drones, no qual doze pessoas morreram, cinquenta ficaram feridas e mais de uma dúzia de prédios residenciais foi destruída. E não parou por aí: enquanto transcorria o encontro de líderes, novas investidas de Moscou causaram estrago em Kiev e Kharkiv. Pouco antes, dezenas de drones ucranianos haviam atingido São Petersburgo, segunda maior cidade russa e berço político do presidente Vladimir Putin, explodindo um terminal de petróleo nas proximidades — este, um alvo preferencial da artilharia da Ucrânia e espinha dorsal da atual ofensiva.

Desde o início do ano, refinarias russas estiveram na mira em 194 ocasiões, onze vezes mais do que no mesmo período de 2025, segundo dados da Rochan Consulting, um grupo de análises que monitora a guerra. Este avanço na batalha travada nos céus é resultado do progresso em inteligência e tecnologia que permitiu a produção de drones de longo alcance e mais precisos pela indústria ucraniana, hoje uma potência na manufatura desse artefato. “A Ucrânia não está apenas realizando mais ataques. Sua estratégia evoluiu de um esforço relativamente restrito contra a infraestrutura petrolífera russa para uma campanha mais ampla de degradação simultânea de sistemas de energia, logística, indústria e exportação”, explica Konrad Muzyka, diretor da Rochan Consulting.
Os constantes ataques às instalações energéticas já obrigaram mais da metade das províncias russas a impor restrições à venda de combustíveis — a produção de gasolina caiu 25% em relação ao ano passado. Recentemente, autoridades de Novorossiysk, no Mar Negro, sede do maior terminal de exportação de petróleo da Rússia, suspenderam a venda do produto a pessoas físicas. Na terça-feira 7, a maior refinaria do país, em Omsk, nos confins da Sibéria, parou de funcionar devido a um ataque de drones que percorreram uma distância até há pouco impensável. Para Putin, imagens de motoristas esperando horas para abastecer seus veículos debilitam a muito repetida narrativa de que a vida na Rússia segue normal. A escassez deu origem a um mercado paralelo: gasolina é vendida em redes sociais a preços inflados, mas com direito a entrega rápida e garantida.

Rompendo o hábito de não comentar más notícias, Putin admitiu no final de semana “um certo déficit” de combustível, “porém não um déficit crítico”. A intensificação das incursões no território russo se soma, no âmbito dos prejuízos, ao tremendo custo humano da guerra. Segundo cálculo do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), o número de mortos e feridos passa de 2 milhões, com a maioria das baixas no lado russo — 450 000 soldados mortos, contra 150 000 ucranianos. A ofensiva de verão de Kiev não foi surpresa. O próprio presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, anunciou no início do mês uma operação de quarenta dias com ataques de longo alcance na Rússia e na Crimeia, península ao sul que Moscou anexou unilateralmente em 2014 e onde os drones ucranianos vêm causando tamanho estrago que o governo local decretou estado de emergência. “As ações recentes reforçam a posição de Kiev e sua disposição de negociar o fim da guerra. Mas é provável que o Kremlin precise de mais algumas rodadas no ciclo de retaliações aéreas para chegar a uma conclusão desse tipo”, diz Tetyana Malyarenko, professora de segurança internacional da Universidade Nacional de Odessa.
A Rússia, com seu poderio bélico, tem cacife para continuar fincando pé por ora, ainda mais diante das deficiências da Ucrânia na interceptação de mísseis e da demora na liberação de recursos já aprovados pela União Europeia. Em Ancara, onde o confronto foi assunto, Trump se encontrou com Zelensky e pôs panos quentes em rusgas do passado, como o desastroso tête-à-tête na Casa Branca, em que o americano humilhou seu par em frente às câmeras. E foi além dos afagos: prometeu autorizar Kiev a fabricar in loco o poderoso sistema de defesa aérea Patriot, justamente para abater os projéteis balísticos despachados aos montes de Moscou. O mercurial presidente, aliás, aterrissou em solo turco disparando para todos os lados: criticou os aliados europeus por fazerem pouco para ajudar no conflito contra o Irã, que esquentou nas últimas horas com mais violações à cambaleante trégua, e avisou que ainda tem planos de tomar a Groenlândia. Sobre a guerra que se arrasta na Ucrânia, afirmou que espera uma solução “em breve”. É ver para crer.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003

