O conflito no Sudão devastou o país. Notícias recentes mostram manchas de sangue visíveis do espaço. Como de costume, interesses estrangeiros estão no centro da sangrenta guerra sudanesa: o principal financiador das Forças de Apoio Rápido (RSF) são os Emirados Árabes Unidos (EAU). Mas a história é mais complexa do que simplesmente financiar um grupo paramilitar violento no Sudão. Os EAU e a maioria dos outros estados árabes ricos em petróleo do Golfo estão envolvidos em uma “nova corrida pela África”, inserindo-se na política do continente, comprando terras, adquirindo concessões portuárias e se consolidando como importantes parceiros comerciais de países africanos.
A dimensão do investimento do Golfo na África aumentou exponencialmente nas últimas duas décadas. Os Emirados Árabes Unidos, por si só, rivalizam agora – e em alguns aspectos superam – a China como a maior fonte de investimento estrangeiro direto (IED) na África. Esses fluxos de capitais não se restringem a apenas um setor. O capital dos emirados abrange portos, logística, mineração, energia, finanças e agricultura. A influência do Golfo vai além da região do Oriente Médio e Norte da África (MENA), alcançando o Chifre da África e o Sahel. Sudão e Etiópia, onde vastas extensões de terras férteis, acesso à água e corredores comerciais estratégicos convergem, são países-chave na estratégia do Golfo.
Terra, alimentos e comércio: por que o agroinvestimento é importante
No Sudão e na Etiópia, o capital do Golfo tem como alvo grandes propriedades agrícolas, a pecuária e o agronegócio, frequentemente por meio de empreendimentos conjuntos (joint ventures) com elites locais ou autoridades estatais. Enquadrar as terras adquiridas como subutilizadas ou improdutivas confere legitimidade ao negócio, independentemente do uso local da terra. No Sudão, milhões de hectares foram arrendados ou concedidos para a agricultura comercial e a pecuária, frequentemente desfavorecendo pequenos agricultores e pequenos criadores de gado. Os recursos hídricos são redirecionados da agricultura de subsistência para o agronegócio voltado para a exportação, remodelando as relações agrárias e acelerando a proletarização. Dinâmicas semelhantes ocorreram na Etiópia, onde a Arábia Saudita se destaca como o principal investidor em terras. O primeiro-ministro Abiy Ahmed tem se empenhado para atrair o capital do Golfo para a Etiópia desde que perdeu o apoio do Ocidente após a guerra em Tigray. Esse capital é essencial para financiar os projetos de desenvolvimento de Abiy, que envolvem o deslocamento massivo de populações. Na Etiópia, os processos de desapropriação em áreas rurais se repetem em áreas urbanas. O desenvolvimento capitalista provocou a precarização de populações já vulneráveis, o que conta com a plena aprovação do Estado.
As relações comerciais entre o Sudão, a Etiópia e o Golfo exemplificam sua relação extrativista. O Sudão (e a Somália) fornece a esmagadora maioria do gado consumido no Golfo. A economia da Etiópia permanece profundamente dependente das exportações agrícolas. A agricultura constitui-se como a base material tanto dos meios de subsistência rurais quanto das economias nacionais, mas, justamente pelos alimentos serem artigos “comuns”, atrai menos atenção do que a economia política do petróleo ou dos minerais raros. Alimentos não são simplesmente mais uma simples mercadoria: é a essência da vida humana. O controle sobre a terra e a produção de alimentos é uma forma de poder estrutural, que determina quem come, quem trabalha e quem passa fome.
A Desculpa da Segurança Alimentar
Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita utilizam o discurso da segurança alimentar para justificar a aquisição de terras no exterior. Com climas áridos, desertificação, escassez de água e populações crescentes, estes países apresentam as terras agrícolas estrangeiras como uma proteção racional contra a volatilidade dos mercados globais. Estratégias nacionais de segurança alimentar, ministérios especializados e parcerias público-privadas reforçam essa narrativa.
Essa justificativa não resiste a uma análise mais rigorosa. Os Emirados Árabes Unidos estão entre os países com maior segurança alimentar do mundo, superando em muito o Sudão e a Etiópia, ambos enfrentando insegurança alimentar crônica, de acordo com o Índice de Segurança Alimentar. O desperdício de alimentos nos Emirados Árabes Unidos continua alarmante, chegando a 60% durante o Ramadã em Dubai. O problema, então, não é a escassez.
O que os investimentos do Golfo consolidam é o controle sobre as cadeias produtivas agroalimentares: da terra e da água, passando pela produção e pelo processamento, até os portos, o transporte marítimo e a reexportação.
Conglomerados ligados ao Estado, como o DP World, o AD Ports, o Al-Dahra e o Jenaan, operam em toda essa cadeia, integrando a agricultura à infraestrutura logística ao longo do Mar Vermelho e do litoral africano.
O controle sobre portos, corredores de transporte e rotas marítimas permite que o capital do Golfo extraia valor de forma eficiente, ao mesmo tempo em que se protege dos riscos políticos. É por isso que os investimentos em alimentos coexistem com concessões portuárias e, cada vez mais, com o envolvimento militar. A guerra no Sudão expõe essa lógica de forma contundente. O alegado apoio dos Emirados Árabes Unidos às Forças de Apoio Rápido não pode ser dissociado de seus interesses materiais em terras, ouro e acesso ao Mar Vermelho. A “segurança alimentar”, portanto, funciona menos como uma preocupação genuína do que como uma fachada ideológica para a acumulação de riquezas.
Acumulação primitiva e o Chifre da África como fronteira de extração.
Em todo o território do Sudão e da Etiópia, a terra está sendo transformada de um meio de subsistência comunitário em um ativo financeiro. A água é canalizada; o trabalho é sistematizado; e as relações sociais são reestruturadas a serviço do capital. Isso dá continuidade à história de pilhagem e de exploração imperialista no continente. A África há muito tempo sofre com ondas de desapropriação – colonial, neocolonial e agora financeira.
Posicionados entre as potências imperiais centrais e as economias periféricas, os Estados do Golfo atuam como intermediários subimperiais da acumulação. Como observa Patrick Bond em BRICS: An Anti-Capitalist Critique (em tradução livre: BRICS: Uma Crítica Anticapitalista) (2018), as potências emergentes tanto reforçam as hierarquias do capitalismo e do imperialismo quanto as desafiam. Os Estados do Golfo, em particular, claramente não são alternativas anti-imperialistas, mas componentes vitais do capitalismo contemporâneo, operando como potências subimperiais que estabilizam, em vez de subverter, a ordem global.
O capital do Golfo não desafia o capitalismo global; pelo contrário, o aprofunda. Considere as quatro relações de subimperialismo identificadas por Bond: com o imperialismo, com a crise capitalista, com a hegemonia regional e com a superexploração. Ao exportar capitais excedentes para terras, sistemas alimentares e infraestrutura africanos, os Estados do Golfo ajudam a resolver crises de superacumulação em seus territórios, ao mesmo tempo que expandem as relações capitalistas para o exterior. Eles dependem da hegemonia do dólar americano e defendem os interesses ocidentais no Oriente Médio como um todo, enquanto também elaboram suas próprias estratégias imperialistas. Os superlucros elevaram o padrão de vida de uma camada da população do Golfo às custas de trabalhadores migrantes, uma classe superexplorada e utilizada para facilitar esta acumulação.
Alguns críticos mencionam o fato de que os investimentos na África são imprevisíveis e arriscados. Frequentemente atrasam e, às vezes, não oferecem o retorno esperado. Isso é usado para refutar a caracterização dos Estados do Golfo como potências predatórias. Mas o imperialismo nunca se reduziu a retornos de curto prazo. Trata-se da “luta por território econômico”, como explicou Lênin; não é uma política, mas uma etapa do capitalismo. O envolvimento do Golfo, embora articulado por meio da retórica Sul-Sul e do discurso de desenvolvimento, tem as características de uma pilhagem imperialista.
Ao situar os Estados do Golfo no âmbito do “subimperialismo”, evita-se discursos que lhes atribuem um caráter excepcional. As representações orientalistas e elogiosas dos Estados do Golfo, ora como autoritários e “bárbaros”, ora como extremamente ricos e modernos, distorcem a realidade. Eles estão no cerne do funcionamento do capitalismo global. A economia política do Golfo é a expressão de um capitalismo ambicioso e em rápida expansão.
Nossa compreensão das dinâmicas no continente africano condicionará nossa solidariedade. Quem é o verdadeiro inimigo? Onde e contra quem devemos concentrar nossos esforços? Enquanto a guerra continua no Sudão, fica claro que uma política anti-imperialista consistente envolve opor-se aos Emirados Árabes Unidos, bem como aos seus apoiadores no Ocidente. Mas a luta pelo acesso à terra, à água, à infraestrutura logística e a recursos preciosos continuará também após a guerra, muito depois de a cobertura da mídia ter acabado. Em vez de oferecer um paradigma de desenvolvimento radicalmente diferente, liderado pelo Sul Global, o envolvimento do Golfo na África reproduz os piores aspectos do capitalismo parasitário e decadente.
Este artigo foi publicado originalmente na Review of African Political Economy (Revista de Economia Política Africana) (ROAPE). Tradução por Anderson Miranda, do Esquerda Online.

