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A herança que reivindicamos e a herança a que renunciamos: 10 anos de um manifesto futurista


“A revolução social do século 19 não pode tirar sua poesia do passado, e sim do futuro. Não pode iniciar sua tarefa enquanto não se despojar de toda veneração supersticiosa do passado. As revoluções anteriores tiveram que lançar mão de recordações da história antiga para se iludirem quanto ao próprio conteúdo. A fim de alcançar seu próprio conteúdo, a revolução do século 19 deve deixar que os mortos enterrem seus mortos. Antes a frase ia além do conteúdo; agora é o conteúdo que vai além da frase.”
Karl Marx, O 18 Brumário de Luis Bonaparte

Em 1897, Lênin escreveu um pequeno ensaio chamado “A Que Herança Renunciamos?”. Nesse texto, o fundador do bolchevismo sistematiza suas críticas ao velho populismo, que negava o predomínio de relações capitalistas no campo russo e idealizava a comuna camponesa como uma forma de transição ao socialismo. Mas o artigo-manifesto de Lênin não apenas negava uma certa tradição. Também reivindicava como sua a rica herança revolucionária liberal e radical, expressa em figuras como Belínski, Herzen e Tchernichévski (este último é autor do romance utópico O que fazer?, do qual Lênin tomou o título emprestado para escrever seu clássico sobre a organização partidária em 1902).

Todos os manifestos, desde o início dos tempos, têm sido assim: eles servem para dizer o que as novas gerações absorvem das velhas tradições e o que propõem de novo. Há 10 anos, em julho de 2016, um punhado de militantes saídos do PSTU também se apresentava publicamente com um texto muito mais singelo, mas de mesmo espírito. Intitulado “É preciso arrancar alegria ao futuro”, o manifesto contava com a assinatura de 739 camaradas que, durante oito meses, haviam travado uma luta interna no PSTU e decidiam agora romper para constituir uma nova organização.

O destino daquela iniciativa é ao mesmo tempo fácil e difícil de rastrear. Por um lado, não é segredo o fato de que o manifesto “É preciso arrancar alegria ao futuro” esteve na base do antigo MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista), fundado em 2016; depois, da Resistência, fundada em 2018; e, mais recentemente, do Semear, corrente interna do PSOL formada em março do presente ano. Mas as coisas não são, também, tão simples. Nenhuma dessas organizações foi a mera continuidade da ruptura de 2016. Ao contrário. Nosso caminho foi muito mais em zigue-zague do que em linha reta. Participaram dos distintos processos de unificação companheiros da NOS (Nova Organização Socialista), MLPS (Movimento de Luta pelo Socialismo), Insurgência, vários grupos regionais e ativistas independentes que não vinham de nenhuma ruptura anterior. O Semear, portanto, tem uma origem heterogênea, diversa. O manifesto “É preciso arrancar alegria ao futuro” é apenas um componente. Mas um componente muito importante. E que hoje vale a pena lembrar. É importante marcar que o manifesto de 2016 foi o episódio mais dramático do lento processo de desagregação do PSTU, que vinha desde o início dos anos 2000, culminou na ruptura de 2016 e encontrou seu desfecho melancólico na explosão de 2025, repleta de denúncias públicas e acusações mútuas.

Lendo o manifesto 10 anos depois

Todo manifesto é uma ruptura com uma concepção anterior. Portanto, contém erros e desequilíbrios. Às vezes, renega-se com excessivo ardor aquilo que deveria ser conservado, mas que é visto como parte de uma herança maldita. Às vezes, ao contrário, teme-se dar o passo decisivo e abandonar concepções que já foram superadas pela realidade e que não cabem mais na nova organização.

Nesse sentido, ler o manifesto “É preciso arrancar alegria ao futuro” 10 anos depois é um interessante exercício. Comecemos pelas limitações. Nele, não se fala a palavra “golpe”. O impeachment de Dilma é tratado como “manobra parlamentar”, um eufemismo claramente insuficiente e que nem vagamente explica o que aconteceu no país naquele fatídico ano de 2016. Em vários momentos, o manifesto parece preocupado em prestar contas ao próprio PSTU, de onde vinham seus militantes: repete, mais de uma vez, que não se tratava de apoiar Dilma politicamente, mas de organizar um “terceiro campo” baseado na “oposição de esquerda ao governo do PT”. É compreensível. O fascismo rondava, mas não havia ainda levantado sua cabeça. Daí o medo principal de sermos confundidos com a esquerda petista. No terreno partidário, o manifesto parece apontar para o caminho de uma corrente “solo”, não ligada a qualquer legenda. Não só não menciona o PSOL como alternativa socialista democrática para a organização dos revolucionários, como inclusive renega a política “da direção majoriária” desse partido, sem dizer exatamente que direção e que política são essas. No terreno internacional, trata a restauração do capitalismo em Cuba como um fato, sem apresentar qualquer evidência ou mesmo formulação mais detalhada.

Mas os méritos do manifesto também são inegáveis e muito mais importantes do que suas compreensíveis debilidades: reivindica a unidade dos socialistas (ainda que abstratamente), a importância de uma frente de esquerda nas eleições 2016 (ainda que sem o PT) e afirma de maneira categórica que aqueles que então rompiam com o PSTU não se consideravam os únicos revolucionários do país e do mundo. Também não é secundário o fato de que o manifesto não faz nenhum ataque político ou ético contra o PSTU. Ao contrário, reivindica a experiência vivida e aponta a possibilidade de um reencontro no futuro.

De um modo geral, o manifesto “É preciso arrancar alegria ao futuro” marcou um momento crucial não apenas de ruptura, mas de possibilidade de encontro-reencontro de centenas de ativistas que vinham de uma trajetória de esquerda radical, mas que se recusavam a sucumbir ao sectarismo purista. Esses encontros foram acontecendo nos anos seguintes e seguem até hoje. Desde nossos primórdios, tentamos elaborar sobre a tragédia da dispersão da esquerda revolucionária, mas nunca idealizamos a unidade. Sempre afirmamos que há rupturas justificadas e não-justificadas. Há rupturas que desagregam e há rupturas que liberam forças e permitem novas unificações no fururo. Queremos crer que o manifesto de 2016 foi a segunda variante.

E então, que quereis?

Os versos “Para o júbilo, o planeta está imaturo. É preciso arrancar alegria ao futuro.” pertencem ao poema “A Serguei Iessênin” e foram escritos por Maiakóvski por ocasião do suicídio do amigo, em 1926, num momento em que o entusiasmo pós-revolucionário começava a dar lugar à brutalidade e ao cinismo stalinistas. Dez anos depois, essas palavras continuam – claro está – completamente válidas. Mas se tivéssemos que escrever um novo manifesto, talvez devêssemos usar outros versos de Maiakóvski. Me vêm à mente o poema “E então, que quereis?”. Essa é a pergunta central que qualquer organização socialista tem que responder. Em 1927, o bardo nascido na Geórgia, com voz de barítono e quase dois metros de altura entoava:

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompendo-as ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

Esses versos dão mais concretude à nossa concepção. A alegria não virá de graça. Para arrancá-la ao futuro, é preciso lutar, “atravessar as ameaças e as guerras”. Uma organização socialista no nosso tempo tem uma ampla e generosa herança a receber. Nos alimentamos de todas as gerações de lutadores marxistas (e mesmo não marxistas) que vieram antes de nós. Mas precisamos reconhecer também quando a herança é uma amarra, “uma roupa que não nos serve mais”, como escreveu Belchior e cantou Elis com sua voz rasgada. O século 21 não é a repetição do século 20. Não basta a mera manutenção das tradições. Precisamos inventar nossa própria tradição. Não partimos do nada, não começamos ontem. Nossas táticas, nossas teorias, nossos conceitos precisam levar em consideração todo o produzido anteriormente, mas não podem se restringir a isso. Um século inteiro ficou para trás; um modo de vida está desaparecendo a olhos vistos. Uma organização ecossocialista moderna precisa ser a síntese de múltiplas tradições. É preciso pensar: Qual o papel das distintas tradições (os famosos “ismos”) para o futuro do movimento socialista? É possível a unidade estratégica entre correntes de origens diversas? Se sim, em que medida e sob quais condições? Em que consiste verdadeiramente o leninismo enquanto modelo organizativo? Qual o balanço mais geral (e também caso a caso) das experiências pós-capitalistas do século 20? Como encarar o neocolonialismo? O neofascismo? A China? O Sul Global? Qual a estratégia para o pós-lulismo? Quais são os desafios próprio do tempo que nos coube viver? Esses são, talvez, temas para um próximo manifesto. Oxalá a história nos dê a chance de escrevê-lo.



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