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Em uma bem ensaiada cerimônia à moda chinesa, com as engrenagens azeitadas do começo ao fim, a banda militar soou as primeiras notas enquanto uma guarda de elite marchava em perfeita sincronia junto a 300 jovens que agitavam bandeirolas do país, conferindo à chegada de Donald Trump à China a envergadura de um encontro daqueles com potencial de dar uma sacudida no status quo, embora sem grandes horizontes de representar uma virada de página para valer. Na verdade, a amistosa recepção do americano no aeroporto de Pequim por altos integrantes do governo capitaneado por Xi Jinping, na quarta-feira 13, foi apenas um ameno prelúdio de uma muito aguardada cúpula que se desenrolaria nos dois dias seguintes sob uma atmosfera de desconfiança de parte a parte e elevadas doses de tensão. Os espinhosos temas que hoje põem em atrito as maiores potências do planeta vão do duelo por supremacia no campo da inteligência artificial (IA) a uma acirrada disputa comercial, passando por uma guerra no Oriente Médio, o que coloca os líderes ávidos por hegemonia em campos opostos do ringue.
Na primeira visita de um presidente americano à nação asiática em quase uma década (o próprio Trump havia sido o último a pisar por lá ainda no primeiro mandato, em 2017), ao menos abriu-se um canal de conversas que pode ajudar a dar nova feição aos esgarçados laços entre as duas nações. Nenhum observador mais atento da cena geopolítica esperava dessa reunião, que se pretende ser uma de uma série de quatro até o fim de 2026, nada perto de um ponto-final nas rivalidades tão existenciais, mas, sim, um primeiro aceno a uma convivência sem tantas asperezas. Segundo Trump gosta de estufar o peito para dizer, estavam ali o “G2”, países com volumosa troca comercial que, no entanto, competem fatia a fatia na economia mundial — dinâmica bem distinta da dos tempos de Guerra Fria, quando o globo era rachado entre americanos e soviéticos em uma divisão sem interseções, em que cada qual cuidava de seu quintal. “Hoje, temos cadeias produtivas interconectadas, e as linhas que dividem o mundo são bem menos definidas”, disse a VEJA o argentino Mariano Ernst, autor do livro Guerra Fria 2.0: Chaves para Entender a Nova Política Internacional.

É nesse cenário de fronteiras menos nítidas, um intrincado tabuleiro de xadrez onde é difícil mover peças, que americanos e chineses se sentaram à mesa empregando um vocábulo afeito a estes tempos — o mapa-múndi, mais na visão de Trump do que de Xi, poderia se assentar sobre “zonas de influência”, um rateio fluido, conforme os interesses de cada um. Um arranjo duríssimo de alcançar diante dos variados fatores econômicos em jogo. Trump aterrissou em Pequim com o propósito de incrementar as vendas de Boeings e itens agrícolas aos chineses (a soja, que pode afetar o Brasil, entre eles) e com o plano de criar um conselho de comércio bilateral para mediar as desavenças que vêm se intensificando. Daí a presença de dezesseis CEOs dos Estados Unidos na comitiva, como Jensen Huang, da Nvidia, e Elon Musk, da Tesla, que já teve cadeira e poder na corte trumpista, brigou com o chefe, mas vem ensaiando reaproximação.
Nos últimos tempos, a China tem afiado as garras ao adotar armas econômicas que antes usava com mais pudor: criou leis para punir companhias que transferem fábricas para fora do país, impediu a Meta de adquirir uma startup local na área de IA e avisou as refinarias que ignorem sanções americanas ao petróleo iraniano. E eis que as multinacionais se veem às voltas com um dilema: seguir a cartilha de Washington ou de Pequim? A dúvida causa incerteza e põe o empresariado global a fazer contas. No ano passado, a temperatura da batalha disparou após Trump impor sobre produtos chineses tarifas que chegavam a 145%, às quais Xi respondeu freando a exportação de minerais de terras-raras, essenciais para mover a roda da tecnologia por trás de quase tudo. Foi em outubro, na Coreia do Sul, que os dois líderes se reuniram e decidiram dar uma desacelerada na contenda — em uma espécie de trégua parcial, o americano baixou a cobrança para 22%, e o chinês suspendeu a maior parte das restrições sobre as terras-raras. Mesmo assim, os carros elétricos da China foram praticamente varridos do mercado nos Estados Unidos porque o preço segue alto, e um naco dos tão almejados minerais que a potência oriental concentra ainda é comercializado com proibitivo ágio, o que muitas vezes inviabiliza o negócio.

Ao desembarcar em solo chinês, Trump cerrou o punho em gesto que evoca vitória, como lhe é típico, enquanto Xi ventilava ao mundo que estaria frente a frente com o mandatário de uma economia “em rota descendente”, gabando-se de números que dão contornos à ambição chinesa. A China pela primeira vez superou os Estados Unidos em investimento em pesquisa e desenvolvimento e dobrou os gastos militares na era Xi, que não esconde o apetite para abocanhar de vez Taiwan — outro árido ponto na pauta do encontro que, entre uma e outra queda de braço, teve direito a visita ao belo Templo do Céu e à sede do Partido Comunista. Para a China, a ilha, que na prática funciona como país independente, é uma província rebelde, à qual não cansa de repetir que vai retomá-la. Já para os Estados Unidos, que não reconhecem Taiwan como Estado soberano, mas contribuem fortemente para sua defesa, o melhor é deixar tudo como está, uma que vez que mantêm ali um elo comercial do qual dependem para abastecer de chips suas esteiras fabris. A situação desagrada Xi, que fez questão de deixar isso claro, ao seu jeito, em Pequim: “Se o tema não for bem conduzido, teremos confrontos e até conflitos, colocando toda a relação em grande risco”, falou.
Como se não bastasse já tantas zonas de atrito, a agenda dos dois líderes transcorreu com o conflito no Irã em marcha, o que traz a Trump, patinando em baixos índices de popularidade, o desafio de encontrar um jeito de sair do enrosco no qual, por iniciativa própria, se meteu ao lado do aliado Israel. Na terça-feira 12, após idas e vindas de um acordo que nunca é selado, o americano chamou o conjunto de propostas do lado dos aiatolás de “lixo”, o que estica o impasse em torno do Estreito de Ormuz, a nevrálgica via marítima que escoa 20% do petróleo global e continua fechada pelo Irã, causando prejuízos em toda parte, inclusive no Brasil. Por ora, a China não se prontificou a tecer costuras para pôr fim ao duelo que envolve seus aliados iranianos, uma carta na manga nas tratativas com Trump. “A guerra trouxe problemas domésticos à Casa Branca e colocou Xi Jinping em posição de vantagem para negociações”, avalia Natali Hoff, especialista em relações internacionais da PUCPR.

É verdade que o conflito não interessa em nada a Pequim. O Irã fornece 90% do petróleo que produz para a China e, enquanto nenhum petroleiro passa por Ormuz, o país precisa usar suas reservas, suficientes para não mais do que um ano, segundo os analistas. Isso preocupa Xi em um momento de crescimento mediano para padrões chineses — 5% no ano passado e estimados 4,5% em 2026. Um dos setores que contribuem para tal patamar é o imobiliário, que já girou 16% do PIB e recuou para 11%, em meio a uma crise na qual as grandes construtoras, que haviam projetado vendas bem mais vultosas, acumulam dívidas. Daí Xi ter razões de sobra para querer manter uma relação menos conflituosa com os Estados Unidos e abrir novas frentes com Washington, seu principal parceiro comercial, com o qual contabiliza hoje negócios na casa dos 400 bilhões de dólares. “Xi tem uma visão pragmática da política internacional e entende que ganha estofo ao firmar parcerias, mesmo que haja divergências à mesa”, observa Roberto Uebel, especialista em geopolítica da ESPM. No tête-à-tête com Trump, deu demonstração disso ao diplomaticamente dizer: “Deveríamos ser parceiros, não rivais”. E o americano retribuiu: “O mundo é especial quando estamos unidos”.
Ao longo dos tempos, muitos encontros entre líderes americanos e chineses deram o que falar. O mais decisivo de todos foi entre Richard Nixon e Mao Tsé-tung, que por quase três décadas governou a China com mãos de ferro. O ano era 1972, e houve ali um redesenho de forças em um globo cindido entre comunismo e capitalismo. Em plena Guerra Fria, os chineses haviam rompido com a União Soviética, e Nixon aproveitou o ensejo para se aproximar dos comunistas chineses e assim conter o avanço soviético, ganhando preciosos pontos na disputa por influência. A cúpula do “G2” transcorreu em um planeta em que não é mais a ideologia que norteia os grandes movimentos, mas, sim, a busca por primazia comercial, tecnológica e militar. Se o aperto de mão de Nixon e Mao na mesma Pequim ingressou nos livros de história como “a semana que mudou o mundo”, o de Xi e Trump não passou de um primeiro passo para tornar mais administrável uma convivência que definirá os rumos deste século.
Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995

