Ao repetir diante de embaixadores estrangeiros, na terça-feira (21), o mesmo movimento que custou oito anos de inelegibilidade a seu pai, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reabriu entre campanhas políticas a dúvida sobre até onde vai sua candidatura à Presidência.
Mais que uma brecha para receber críticas, pesa a percepção de que os desgastes não partiram de ataques dos adversários, mas da atuação do próprio Flávio.
A participação do senador no embate em torno das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil já havia provocado desgaste segundo integrantes da própria campanha. A decisão de voltar, na terça-feira (21), a discutir as urnas eletrônicas com embaixadores reforçou a leitura de que a campanha tem aberto frentes de conflito difíceis de conciliar com a busca por novos aliados.
No evento, Flávio citou documentos da CIA divulgados pelo governo Donald Trump, segundo os quais o chavismo teria alguma capacidade de manipular sistemas eletrônicos de votação na Venezuela, e associou as urnas brasileiras à empresa venezuelana Smartmatic. A informação é negada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que lembra que a Smartmatic havia disputado a licitação para fabricar urnas em 2020 e perdeu para a Positivo. Os contratos com o tribunal se limitaram a treinamento de suporte técnico e a serviços de conexão de dados e voz.
O senador fez ressalva, ainda no evento, ao dizer que não estava questionando o sistema de votação brasileiro, e sim defendendo a presença de observadores estrangeiros. Depois da repercussão, sua campanha divulgou nota negando que ele tenha posto em xeque a integridade do processo eleitoral.
Para articuladores de candidaturas adversárias ouvidos pela CNN, o episódio passou a ser visto como sinal de dúvida sobre se o senador está disposto a assumir o custo desses movimentos para permanecer na disputa até o fim ou se abrirá a possibilidade de desistir.
A estratégia expõe uma contradição. Para se consolidar como alternativa ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio precisa atrair partidos, setores empresariais e eleitores conservadores que rejeitam o governo, mas não desejam nova escala institucional.
Ao retomar um tema associado aos embates do bolsonarismo com a Justiça Eleitoral, o senador reforça a ligação com a base mais fiel, mas reduz o espaço para crescer fora dela e rumar ao centro.
Nos bastidores, há quem avalie que uma eventual reação da Justiça Eleitoral poderia fortalecer o discurso de perseguição e daria à pré-campanha o enquadramento que facilitaria capitalizar politicamente.
Esse ambiente também é acompanhado de perto por candidaturas como a de Ronaldo Caiado (PSD). Aliados do ex-governador de Goiás sustentam que ele tem condições de ocupar o espaço de uma direita capaz de enfrentar Lula sem reproduzir o confronto permanente com as instituições.
A aposta, porém, ainda depende de Caiado ampliar sua projeção nacional e demonstrar capacidade de atrair apoios para além de sua base atual.
O Palácio do Planalto e o PT também observam esses movimentos com atenção, já que Flávio é visto como o adversário preferencial de Lula.
A avaliação é que um eventual enfraquecimento da candidatura de Flávio poderia abrir espaço para um nome da direita com maior capacidade de ampliar alianças e disputar o eleitorado moderado.

