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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dobrou a aposta na defesa à soberania do Brasil com uma nova alfinetada nos Estados Unidos. Na segunda-feira 20, voltando a indicar que o governo Donald Trump usa políticas econômicas para interferir nas eleições brasileiras, ele afirmou ironicamente que se o secretário de Estado americano, Marco Rubio, quiser apoiar a candidatura à Presidência de Flávio Bolsonaro “que venha, que monte um comitê”.
“Se o secretário de Estado americano Marco Rubio quiser vir apoiar o meu adversário, que venha, que monte um comitê, porque a gente vai derrotar todos em nome da defesa da democracia desse país”, disse Lula durante a convenção nacional do Partido Democrático Trabalhista (PDT), na sede nacional do partido em Brasília.
Sem citar nomes, o mandatário também declarou que “antigamente traidor era enforcado”. No passado, Lula já chamou integrantes da família Bolsonaro de “traidores da pátria”.
Tarifas
As falas vêm após Rubio anunciar a decisão de aplicar tarifas de 25% sobre uma série de produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos. O chefe da diplomacia de Trump afirmou que Lula “priorizou seu próprio ego em detrimento de um acordo que vise o bem-estar do povo brasileiro”. Em suas redes sociais, ele disse que a taxação é o preço que o Brasil paga pelo comportamento de seu mandatário e que o petista e seu governo “não negociaram com os Estados Unidos de boa fé”.
O chanceler de Lula, Mauro Vieira, rebateu que as alegações são “inaceitáveis e ofensivas”. De acordo com ele, o posicionamento de seu homólogo americano não passa da um ataque “grosseiro e arrogante” contra um “chefe de Estado de um país amigo”, garantindo que Lula “se empenhou pessoalmente pela abertura de canais de negociação em várias ocasiões”.
Rubio comanda a reformulação da política externa americana, marcada por tarifaços e ameaças bélicas destinadas à obtenção de vantagens econômicas e estratégicas, e uma de suas características é bater de frente com governos considerados hostis. Filho de imigrantes cubanos e ferrenho anticastrista, sua mira costuma recair sobre países comandados pela esquerda, em especial na “vizinhança” da América Latina, que, segundo ele, estaria sob influência cada vez maior da rival China.
No caso específico do Brasil, o secretário de Estado, que é conhecido por manter uma quasi-amizade com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) há oito anos, não só tem um dedo no tarifaço 2.0, como, no ano passado, liderou uma represália ao programa Mais Médicos, que teve massiva participação de cubanos durante a gestão Dilma Rousseff. Como parte da ofensiva, a esposa e a filha do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que ocupava o mesmo cargo no mandato da petista, tiveram os vistos revogados.
Rubio também defendeu publicamente a aplicação da Magnitsky a Alexandre de Moraes, quando o governo americano foi acusado por Lula de tentar interferir no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro: “Que seja um aviso para aqueles que atropelam os direitos fundamentais de seus compatriotas — as togas judiciais não podem protegê-los”.
Green card
Em paralelo, o governo Trump também concedeu a Eduardo Bolsonaro um green card, justamente no momento em que os Estados Unidos dificultam o acesso à cidadania e poucas semanas depois do ex-deputado ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 4 anos e 2 meses de reclusão por coação no curso do processo, ficando comprovado, segundo a corte, que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) atuou nos Estados Unidos para interferir no julgamento em que o pai foi condenado por tentativa de golpe de Estado. A extradição de Eduardo, que mora no Texas, fica, assim, ainda mais difícil.
A denúncia do STF informa que ele mesmo afirmou ter feito gestões para que o governo Trump impusesse sanções a autoridades brasileiras e medidas econômicas contra o país. No ano passado, o primeiro tarifaço americano contra o Brasil foi acompanhado de uma carta do presidente dos Estados Unidos direcionada ao ex-mandatário brasileiro em que definiu a ação penal como uma “caça às bruxas” e defendeu o fim imediato do julgamento.
“Eu vi o terrível tratamento que você está recebendo nas mãos de um sistema injusto. Este processo deve terminar imediatamente!”, afirmou Trump.
Além disso, o ministro do STF Alexandre de Moraes, relator do processo contra Bolsonaro, tornou-se alvo da Lei Magnitsky, ferramenta do governo americano criada para sancionar estrangeiros que cometeram violações graves de direitos humanos ou de corrupção em larga escala.
A Magnitsky foi revogada, enquanto o mecanismo usado pelo governo Trump para acionar o tarifaço original foi considerado ilegal pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Agora, a nova tarifa de 25% foi justificada pela chamada Seção 301, alegando práticas como favorecimento ao Pix, acesso ao mercado de etanol e problemas relacionados à corrupção e desmatamento. O representante americano de comércio, Jamieson Greer, afirmou que as negociações entre Brasil e Estados Unidos ao longo do último ano não resolveram as divergências.

