InícioBrasilOs deuses do futebol castigam os tiranos

Os deuses do futebol castigam os tiranos


Artilheiro Belga, Romelu Lukaku, comemora o quarto gol da sua seleção com gesto de deboche contra Trump

Existe uma velha máxima do cronista esportivo Nelson Rodrigues: no futebol, o sobrenatural também entra em campo. É como se existissem “deuses do futebol” que, de tempos em tempos, lembrassem ao mundo que nem a força militar, nem o autoritarismo, nem o poder político conseguem controlar completamente o destino de uma partida.

Após anexar a Áustria ao Terceiro Reich, Adolf Hitler obrigou os principais jogadores austríacos a defenderem a seleção alemã. A expectativa era clara: transformar a intervenção militar em vantagem esportiva e fortalecer a equipe nazista na disputa do Mundial realizado na França.

A Copa do Mundo de 1938 oferece um exemplo marcante dessa ideia. Após anexar a Áustria ao Terceiro Reich, Adolf Hitler obrigou os principais jogadores austríacos a defenderem a seleção alemã. A expectativa era clara: transformar a intervenção militar em vantagem esportiva e fortalecer a equipe nazista na disputa do Mundial realizado na França.

Mas os planos da tirania encontraram resistência dentro e fora de campo. No confronto contra a Suíça, a Alemanha não conseguiu impor sua superioridade. O primeiro jogo terminou empatado, levando a uma nova partida, como previa o regulamento da época. No estádio Parque dos Príncipes, em Paris, a torcida francesa apoiou maciçamente os suíços. Embalada pelas arquibancadas e pela determinação de seus jogadores, a Suíça fez uma grande partida, venceu de virada e eliminou a poderosa seleção alemã. Quase noventa anos depois, outra Copa voltou a expor a interferência de um líder autoritário no esporte. O governo de Donald Trump adotou medidas relacionadas à imigração e à segurança que repercutiram diretamente na competição. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, eleito o melhor árbitro africano em 2025, foi impedido de entrar no país e acabou excluído da arbitragem do torneio após ter seu visto negado sob alegações de segurança nacional.

Outro episódio simbólico atingiu diretamente a torcida africana. O congolês Kuka Mboladinga, conhecido mundialmente como “Lumumba Vea”, em homenagem ao líder da independência do Congo, também teve o visto negado e foi impedido de acompanhar a partida decisiva entre a República Democrática do Congo e o Uzbequistão. Figura marcante nas arquibancadas africanas, sua ausência tornou-se um símbolo das barreiras impostas a torcedores.

Na véspera da partida entre Estados Unidos e Bélgica, surgiu ainda outro episódio controverso. Donald Trump pressionou a FIFA para que fosse anulado o cartão vermelho recebido por Balogun. O episódio foi interpretado por críticos como uma tentativa de interferência política em uma decisão esportiva e levantou questionamentos sobre a postura de submissão do presidente da entidade, Gianni Infantino.

Entretanto, o futebol continua produzindo seus próprios símbolos. Em campo, os resultados frustraram as pretensões do governo trumpista. A Bélgica derrotou os Estados Unidos por 4 a 1 e encerrou a campanha da seleção da casa. E o melhor. Coube ao grande artilheiro Lukaku, um jogador belga de descendência congolesa, o papel de sacramentar a derrota da seleção dos EUA com o quarto gol, marcado já nos acréscimos.

Se existem, de fato, os deuses do futebol, eles parecem ter uma preferência muito clara: lembrar que os tiranos nem sempre podem controlar o destino da bola.

Se existem, de fato, os deuses do futebol, eles parecem ter uma preferência muito clara: lembrar que os tiranos nem sempre podem controlar o destino da bola.

E talvez essa seja uma das maiores belezas do futebol: ele não combina com a tirania.





Veja a matéria completa Aqui!

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais vistas

Comentarios