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A popularidade em baixa de Gustavo Petro trouxe justificadas esperanças à banda da tradicional direita colombiana de reaver a cadeira presidencial na Casa de Nariño, em Bogotá, ocupada por seus integrantes ao longo dos últimos 150 anos. O inédito governo à esquerda do ex-guerrilheiro não apenas foi permeado por escândalos e medidas de cunho populista, como frustrou o eleitorado ao não cumprir a ambiciosa promessa de “paz total”, plano que Petro brandia argumentando que, à base de muita conversa, convenceria os grupos armados que controlam vastos territórios de cultivo de coca a entregarem suas armas, o que previsivelmente não aconteceu. Cenário tão adverso para o mandatário parecia ideal para a ascensão de Paloma Valencia, do Centro Democrático, que aglutina a direita há tempos capitaneada pelo ex-presidente Álvaro Uribe. Mas eis que, às vésperas da eleição, em 31 de maio, quem tem mais se beneficiado da vacilante gestão esquerdista é um histriônico personagem, forjado nas franjas da extrema direita tão em voga planeta afora.
O figurino com que Abelardo de la Espriella, 47 anos, um empresário neófito na política, encara a queda de braço por poder faz lembrar o de muitos de seus colegas de América Latina. Advogado criminalista, com um currículo recheado de clientes enredados em corrupção e ligados a grupos paramilitares, o ultraliberal Espriella se inspira em próceres de mesmo matiz ideológico que têm levado a melhor nas urnas em nações vizinhas. Seu genérico programa de governo, intitulado “treze milagres para salvar o país”, contém ideias descaradamente importadas de Javier Milei, à frente de um ferrenho enxugamento da máquina estatal na Argentina. Até o apelido de Espriella, El Tigre, foi baseado em Milei, “El León”. Na área da segurança, a fonte maior é Nayib Bukele, o presidente de El Salvador que endureceu a guerra contra o crime organizado engolindo instituições e encarcerando altos quadros de gangues em megapresídios frequentemente acusados de atropelar direitos humanos. “Vou fumigar as plantações de coca e bombardear os vilarejos”, ruge na campanha El Tigre.

O novato da vez ganha fôlego em meio a uma equação observada em vários outros países, onde a população se revela farta dos mesmos nomes que a cada pleito se repetem na cédula. “Espriella atrai uma parcela que não vota mais na esquerda, neste caso associada à violência das guerrilhas, mas também não quer apostar nos tradicionais políticos de sempre”, explica a historiadora Julimar Mora Silva, da UFF. Calcado na polêmica, ele surfa a onda conservadora, que recentemente se fez avassaladora no Chile e no Equador, impulsionado pelas redes sociais que a todo instante alimenta. A poucos dias da eleição o jogo segue embolado, tendo no lado oposto do ringue Iván Cepeda, o senador pelo Pacto Histórico, o partido de Petro, que preferia ter ficado longe do páreo. De perfil austero e militância na seara dos direitos humanos, Cepeda vem aparecendo na dianteira das pesquisas, com uns 35% das intenções de voto, enquanto Espriella e Valencia duelam pela segunda vaga, girando em torno de 20%. No segundo turno, a coisa embaralha e, se confirmado no confronto, Espriella se aproxima de Cepeda.
O ponto forte do postulante da esquerda é o apoio da turma mais jovem, que colhe frutos de uma reforma trabalhista aprovada no ano passado a qual acabou por ampliar direitos e elevar o salário mínimo. Já Espriella bate na tecla do combate à violência, bandeira especialmente cara a um país que atravessou anos de sangrenta batalha contra os cartéis de drogas nos anos 1990, e ventila uma aliança com os Estados Unidos de Donald Trump, de quem é entusiasta apoiador. A ver o que os colombianos pensam da metamorfose pela qual passou o novato que fez sacudir o tabuleiro do pleito que se avizinha. “Espriella morou a vida inteira em Miami e foi deixando de ser um liberal clássico, ateu e a favor do casamento gay para se tornar um personagem político”, afirma Laura Bonilla, vice-diretora da Fundação Paz e Reconciliação. De papel ou de verdade, El Tigre já mostra suas garras.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996

