A decisão do governo Lula de não atuar para impedir a derrubada do veto presidencial sobre a redistribuição de recursos a municípios foi interpretada, nos bastidores, como um gesto a prefeitos, mas também como um aceno ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Integrantes do Palácio do Planalto negam que tenha havido qualquer movimento coordenado para beneficiar Alcolumbre.
Reservadamente, porém, interlocutores admitem que a reação da base acabou sendo positiva para uma relação tensionada entre Senado e governo.
O veto derrubado tratava da redistribuição de recursos destinados aos municípios e vinha sendo alvo de pressão da CNM (Confederação Nacional dos Municípios), com quem Lula se reuniu na última quarta (21). O governo, segundo líderes, optou deliberadamente por não se mobilizar para sustentar o veto de Lula durante a sessão do Congresso.
A avaliação de integrantes do governo é de que um enfrentamento com prefeitos às vésperas do calendário eleitoral municipal teria alto custo político.
O episódio ocorre poucos dias após Alcolumbre subir o tom sobre o assunto, durante a Marcha dos Prefeitos, em Brasília. Na ocasião, o presidente do Senado afirmou publicamente que havia alertado o governo de que não existiam votos suficientes para manter o veto vigente.
Nos bastidores, interlocutores de Alcolumbre dizem que o senador considera o episódio de richa com Lula “superado”. A senadores próximos, o presidente do Senado diz ter sido transparente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao avisá-lo previamente sobre o risco de derrota no caso Messias.
A interlocutores, Lula tem dito ainda estar “magoado” com Alcolumbre, mas que pretende manter um diálogo institucional com o chefe do Senado.
Mesmo após a derrota, o Planalto tenta preservar pontes com Alcolumbre diante de pautas consideradas prioritárias para o governo.
Entre os temas mencionados por auxiliares de Lula está a PEC da Segurança Pública, que está parada no Senado.
Além disso, essas fontes alertam que o presidente quer evitar o avanço de “pautas-bomba”, com potencial de impacto fiscal. Entre elas, estão a PEC que reduz a idade mínima de aposentadoria dos agentes comunitários de saúde e propostas que criam pisos nacionais para bombeiros, dentistas e médicos, esta última aprovada por unanimidade na CAS (Comissão de Assuntos Sociais) do Senado.
Outro tema sensível para o Planalto é a discussão sobre o fim da escala 6×1. Integrantes do governo avaliam que o debate seguirá lógica semelhante à adotada na proposta de isenção do Imposto de Renda: haverá espaço para alterações no texto e ampliação do prazo de discussão antes de qualquer avanço concreto.
A leitura hoje no governo é de que, apesar dos ruídos recentes, Alcolumbre não pretende prolongar o desgaste institucional com Lula.
Integrantes do governo afirmam perceber sinais de que o senador deseja tratar os episódios recentes como quebras “pontuais” e preservar o canal com o Planalto.

