“Dark Horse“, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, apresenta-se como uma ficção baseada em fatos reais. No entanto, o trailer que veio a público na terça-feira (19) sugere, em diversas cenas, que o longa-metragem dirigido por Cyrus Nowrasteh aderiu a teorias conspiratórias sobre episódios reais.
Em pouco mais de dois minutos, Bolsonaro, interpretado pelo ator Jim Caviezel, é retratado como um herói hollywoodiano, travando uma batalha contra o sistema, na campanha de 2018. As imagens de Bolsonaro são alternadas com as de um grupo de mercenários, comandado pelos opositores do então candidato.
Esai Morales, que atuou na saga “Missão: Impossível”, encarna um dos mandantes, mostrado em breve cena do trailer. Com previsão de lançamento para o segundo semestre, o filme é todo falado em inglês, com atores imitando o sotaque dos latinos radicados nos Estados Unidos. Adélio Bispo de Oliveira, autor da facada em Bolsonaro em 2018, é rebatizado como Aurélio Barba, encarnado por José Trassi. A cena da facada é o clímax do trailer.
De início, o trailer foi publicado nas redes pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Pré-candidato à Presidência da República, ele cobrou dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, para financiar “Dark Horse”. A seguir, a reportagem analisa cinco pontos da narrativa difundida e como eles podem ser afastar da realidade.
‘Quem são eles? Você?’
Logo no início do trailer, uma repórter aborda o então candidato, pedindo declarações sobre uma possível volta da ditadura militar em seu governo. “Eles dizem que você vai restaurar a ditadura”, diz a jornalista, ao que o personagem responde de forma ríspida. “Eles, eles, eles, eles. Quem são eles? Você?”. O “eles” exerce aqui a função sintática de sujeito indeterminado e, semanticamente, introduz duas questões presentes no longa.
Em primeiro lugar, ao esconder quem seriam os seus críticos, introduz o tom conspiratório do trailer, que insinua uma guerra entre Bolsonaro, o herói do filme, e seus adversários políticos.
Em segundo lugar, busca se descolar da apologia à ditadura militar feita pelo ex-presidente durante toda a sua vida pública. Na sessão do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, Bolsonaro ofereceu seu voto à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos principais torturadores do regime militar.
No ano passado, Bolsonaro foi condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
‘Meus aliados querem ele morto’
A julgar pelo trailer, o roteiro de “Dark Horse” imagina um grupo de mercenários, comandado pelo partido opositor, que tenta matar Bolsonaro. “Meus aliados querem ele morto”, diz um dos mandantes, vivido por Esai Morales.
A realidade, porém, é bem diferente. Há dois anos, a Polícia Federal concluiu que Adélio agiu sozinho, ao dar uma facada em Bolsonaro, em um evento de campanha, em Juiz de Fora, Minas Gerais.
Em 2019, a PF considerou Adélio inimputável, porque laudos psiquiátricos registraram-no com transtorno delirante persistente. Adélio está preso na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS) e, há dois anos, teve sua transferência para um hospital psiquiátrico suspensa.
O ex-presidente estimulava a narrativa de que a esquerda mandou matá-lo aproveitando-se do fato de que Adélio foi filiado ao PSOL.
‘O partido no poder, eles estão por trás disso’
Em cena escurecida, alguns policiais discutem o caso da facada e um deles deixa escapar: “O partido no poder, eles estão por trás disso”. A construção frasal, com a quebra sintática, traz o “eles” de volta, junto com o tom conspiratório.
A PF concluiu, afinal, que o atentado não foi orquestrado por um grupo político.
De todo modo, ao atribuir o atentado ao partido que está no poder, insinuando a participação do PT no caso, o roteiro esbarra em outra inconsistência: o partido que estava no poder na época da facada era o MDB, do ex-presidente Michel Temer, que manteve boa relação com Bolsonaro.
Em 2021, Temer fez a ponte entre Bolsonaro e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e ajudou o então presidente a escrever uma nota de recuo após ataque aos Poderes.
‘E enfrentou o sistema’
Durante o trailer, algumas mensagens são usadas para apresentar o personagem principal, tratado como um político antissistema. “Ele era a voz do povo. E enfrentou o sistema. O sistema que o temia.”
Bolsonaro, no entanto, durante sua carreira, foi deputado do chamado centrão, bloco informal do Congresso conhecido pelo fisiologismo e distante de convicções ideológicas.
Até chegar ao PL, em 2021, Bolsonaro passou por oito partidos. Permaneceu por mais tempo no PP, de 2005 a 2016, 11 anos no total.
“Eu sou do centrão”, disse ele, ao ser questionando sobre a sua escolha pelo senador Ciro Nogueira (PP) para ser ministro da Casa Civil. Ciro é investigado no escândalo do Banco Master.
‘De ambientalistas estrangeiros até pedófilos de Hollywood‘
Em uma das cenas mais conspiratórias do trailer, Bolsonaro surge discursando em meio a uma multidão e elege dois inimigos para o Brasil: “De ambientalistas estrangeiros até pedófilos de Hollywood, este país não é deles. É nosso”.
O “eles” das cenas passadas se torna agora “ambientalistas estrangeiros” e “pedófilos de Hollywood”. Não há nenhum indício de que esses dois grupos tenham ameaçado a soberania nacional.
É verdade, porém, que ambientalistas criticaram a política do então ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, hoje deputado federal, que, numa reunião do governo Bolsonaro em 2020, defendeu “passar a boiada”, uma referência ao afrouxamento das regras de desmatamento.
De acordo com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais), Bolsonaro encerrou seu mandato com alta de 60% no desmatamento da Amazônia.
A cultura foi outro alvo do ex-presidente, que demonizou, em discurso, as leis de incentivo, criminalizando os artistas que delas se valiam. Recusou-se a homenagear figuras centrais da cultura brasileira que morreram, como ocorreu, em 2019, com João Gilberto, o pai da bossa nova. Limitou-se a dizer: “Era uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?”.

