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O indiciamento do ex-presidente cubano Raúl Castro pela Justiça americana pelo abate de dois aviões civis em 1996 ganhou um novo capítulo após um ex-agente da inteligência cubana apresentar sua versão sobre o episódios — um dos mais delicados da relação entre Washington e Havana nas últimas décadas.
Quase trinta anos depois do ataque da Força Aérea cubana às duas aeronaves, que levou à morte de quatro pilotos, René González, piloto e ex-agente infiltrado nos Estados Unidos entre 1991 e 1998, falou à agência de notícias AFP sobre o caso que voltou ao centro da tensão diplomática entre os dois países após a nova ofensiva judicial americana contra o antigo líder cubano.
González, que participou da fundação da organização Irmãos ao Resgate, dona dos aviões, contestou a imagem exclusivamente humanitária do grupo criado por exilados cubanos anticastristas em Miami.
A organização ganhou notoriedade nos anos 1990 por operações de busca de cubanos que tentavam chegar à Flórida em embarcações precárias. Segundo o ex-agente, porém, as atividades iam além das missões de resgate.
“Por trás de um conceito humanitário de salvar vidas se esconde toda uma série de esquemas que não são públicos”, afirmou.
Na avaliação de González, a radicalização de parte da organização se intensificou em meados da década de 1990, período marcado pelo colapso econômico de Cuba após o fim da União Soviética, sua principal aliada. “Eles foram escalando sob a percepção de que o governo cubano estava com os dias contados”, disse.
O ex-espião faz, contudo, uma distinção entre integrantes do grupo. Ao comentar a morte dos pilotos Carlos Costa e Mario de la Peña, ele afirmou que ambos estariam ligados principalmente às operações de busca e salvamento e não teriam participação em outras atividades atribuídas por ele à organização.
O caso
O episódio que voltou ao centro da disputa diplomática ocorreu em 24 de fevereiro de 1996. Naquele dia, caças MiG cubanos derrubaram duas aeronaves civis dos Irmãos ao Resgate, provocando a morte de quatro pessoas. Um terceiro avião, pilotado por José Basulto, fundador da organização, conseguiu escapar.
Washington sustenta que o ataque ocorreu em espaço aéreo internacional, algo confirmado pela Organização da Aviação Civil Internacional. Havana, porém, afirma há décadas que os aviões haviam invadido território cubano e que a ação militar ocorreu em legítima defesa.
A nova acusação apresentada pela Justiça americana mira Raúl Castro, então ministro da Defesa e posteriormente sucessor de Fidel Castro no comando da ilha. Hoje com 94 anos, ele foi indiciado por assassinato, conspiração para matar cidadãos americanos e destruição de aeronaves.
Para González, a medida faz parte de uma estratégia mais ampla de endurecimento da pressão americana sobre Cuba. “Não me surpreende”, afirmou.
Segundo o ex-agente, setores mais radicais do exílio cubano nos Estados Unidos pressionam Washington há décadas por uma política mais dura contra Havana e transformaram a derrubada das aeronaves em um símbolo político da disputa entre os dois países.
González também relacionou o episódio à aprovação da Lei Helms-Burton, sancionada em 1996 pelo então presidente Bill Clinton e responsável por endurecer o embargo econômico americano contra Cuba.
Ao comentar a hipótese de um confronto direto entre os dois países, ele declarou: “Seria uma tragédia para Cuba e para os Estados Unidos.”

