Ultimamente meus escritos têm sido desabafos claros de uma realidade que vem sendo produzida do sofrimento de meu povo. A luta tem começado a se tornar difícil, dolorosa e desanimadora, mas é para este lado que a realidade tem apontado. Entretanto, tenho ganhado forças do jeito mais puro e sincero: os afetos. Afetos dos mais diversos, plurais, que nos atravessam durante a trajetória. E acredito que aqui deve ser onde eu sempre quis começar: não do singular, mas daquilo que há de melhor nas relações, a famigerada diferença. Mesmo que eu tenha apreendido pouco até então de Psicanálise, tomo o direito de falar da falta. A diferença nos mostra que a busca incessante por aquilo que falta em nós é a lacuna essencial para buscar no outro. Tenho encontrado, com muito sucesso, afetos que atravessam o meu cotidiano e me ajudam nesta luta de classes que, por mais profícua que seja, é o único caminho para a superação deste sistema. O título ‘‘Encantamento Negro’’ vem da provocação da amargura gerada por todo debate racial que tem sido pautado recentemente, e também pelo que escreveu Pablo Henrique no esquerda online, “a amargura quando naturalizada, vira hábito; quando vira hábito, estrutura o mundo. Encantar e contaminar é o único modo de descontinuar e substituir uma lógica inteira, não apenas de sentimentos, mas de vida. E o espírito desencantado é o solo mais fértil para a amargura.”
O conhecimento tem retirado o véu que escamoteia a dura realidade dos trabalhadores brasileiros. Se voltarmos à constituição do Estado Moderno, notamos que não foi um “preconceito” abstrato que pilarizou nossa sociedade, mas a escravidão dos povos racializados. O mito da democracia racial, ao se sedimentar na falsa ideia de meritocracia liberal, é utilizado pela direita como ferramenta para fragmentar a classe trabalhadora, escondendo que a hierarquia de cor é, na verdade, uma hierarquia de exploração sanguinária. Aqui cabe tensionar o papel da esquerda brasileira na atualidade, a amargura surge pra mim no momento em que encaro a esquerda que vem sendo apresentada para os trabalhadores e estudantes que não conseguem ter por natureza um horizonte ecossocialista. A esquerda como vem sido consolidada pelos governos do PT, pouco apresentam uma perspectiva de luta revolucionária com um protagonismo do sujeito negro dirigindo essa operação, são apenhas fantoches brancos executando minímas reformas para atender aos interesses do capital, a população massacrada diariamente nas ruas e presídios não tem direito de existir dignamente nesta sociabilidade, o encarceramento em massa não é um acaso, é um projeto idealizado para reafirmar a violência sobre estes corpos no Brasil, aqui podemos lembrar do conceito de necropolitica de Achille Mbembe, que designa o uso do poder para quem pode viver e quem poder morrer. E saber que pertenço à esse corpo sujeito a letalidade, se torna uma angústia visceral. Neste cenário, o radicalismo negro brasileiro desenvolveu-se como resposta material à situação concreta de vida da população negra. Ele se expressa nas lutas travadas diariamente pelos movimentos sociais e racializados, estão presentes também nas escritas de figuras como por exemplo: Cida Bento, Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzalez. O que esse radicalismo oferece é um atrito constante, entraves e recusa. Não é apenas a superação teórica do capital, mas sua negação cotidiana, material e arriscada. No Brasil, é inverossímil separar a luta de classes da opressão racial, especialmente quando olhamos para a base da pirâmide ocupada pela mulher negra, tendo a população trans e travesti como o “subúrbio” desta base, um verdadeiro moinho de moer gente. Lélia Gonzalez já apontava como o capitalismo dependente e tardio se utiliza do racismo e do sexismo para a superexploração. Portanto, no pensamento marxista consequente, a luta antirracista é, inerentemente, uma luta anticapitalista.
Fanon, um médico psiquiatra da Martinica, revolucionário marxista, nos ensina muitas coisas em sua breve vida, uma delas é que a opressão opera dialeticamente com a resistência. Sob esta lógica, devemos compreender como no Brasil a resistencia vem sendo articulada pelos movimentos sociais das populações marginalizadas, o surgimento do Movimento Negro Unificado (MNU) lançada em 7 de julho de 1978 é um grande expoente dessa luta em que posso ter o orgulho de participar. Em plena ditadura militar, o grito nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, representantes de vários grupos se reuniram, em resposta à discriminação racial sofrida por quatro garotos do time infantil de voleibol do Clube de Regatas Tietê e a prisão, tortura e morte de Robison Silveira da Luz, trabalhador, pai de família, acusado de roubar frutas numa feira, sendo torturado no 44º Distrito Policial de Guaianases, vindo a falecer em consequência às torturas. Com a criação desse movimento agora estruturado, gerou uma ruptura qualitativa: o povo negro deixou de ser “objeto” de estudo para se tornar sujeito político organizado. Como pontua Clóvis Moura, o capitalismo brasileiro não “sucedeu” a escravidão de forma linear, ele se nutriu dela. A transição para o trabalho assalariado e o escamoteamento das produções de saberes da população preta e parda, manteve a população negra como um exército industrial de reserva permanente, o que rebaixa o valor de toda a força de trabalho nacional e mantém as engrenagens da dependência, uma ferramenta extremamente eficaz em manter o capitalismo operando sobre a exploração da classe trabalhadora, em virtude de perpetuar a burguesia no controle da sociedade.
Penso hoje que a escrita tem se tornado uma ferramenta importante para me ajudar a entender que este processo, apesar de doloroso e cansativo, tem um horizonte. Não quero continuar neste lugar indefinido, quero poder ajudar num processo revolucionário, a ponto de extinguir toda e qualquer semântica sobre gênero e raça. Ambiciono poder discutir quem sou eu na realidade, quero existir como um sujeito que produz sua própria realidade, não apenas enfrentar uma imposição colonial sobre um marcador social que é a minha cor de pele. Almejo muito produzir minha identidade, mas para que isso seja possível é necessário destruir o que rege esse sistema até agora. Escrevo para gratificar as lutas dos que vieram antes e preparar o terreno para os que virão. As políticas de ações afirmativas, mesmo que sejam correções de cunho liberal, me permitiram adentrar na universidade pública. Luto pelo direito à permanência, pois para permanecer tivemos que entrar. As cotas rompem o monopólio da elite branca sobre o saber e o poder técnico, funcionando como uma tática de curto prazo para fortalecer a classe trabalhadora negra.
No entanto, ocupar a UNESP exige uma postura crítica sobre o próprio chão que pisamos. A universidade carrega o nome de Júlio de Mesquita Filho, figura que representa a elite agrária e intelectual paulista, cuja família e jornal (O Estado de S. Paulo) historicamente flertaram com ideários conservadores e, em momentos cruciais, apoiaram a ruptura democrática e a manutenção de privilégios de classe que excluíram o povo negro. Ocupar um espaço que homenageia essa linhagem é, por si só, um ato de contradição.
Pensando um pouco sobre o por que escolhi a Psicologia reafirmo tudo que venho lutando inconscientemente, escolhi este curso para que eu pudesse adiar o fim da vida de alguém, achei que através das terapias individuais curaria o trauma coletivo. Quem dera fosse tão simples assim, e que bom que não é nada como um dia sugeri. Me sinto muito mais vivo quando sei que a saúde é coletiva, e que este enfrentamento também se tornou. Continuar em um espaço embranquecido ainda é traumático, chato e intolerante por muitas das vezes, ter as mãos atadas pela minha pele, meu cabelo, e meu jeito é definhante. Ademais, é justamente essa relação dialética, de opressão e resistência que me faz persistir, quantos não tiveram essa oportunidade, e quantos não terão se nós não tivermos um compromisso ético-político com nossa atuação na universidade, eu preciso ver com meus olhos isso acontecer, ou o desencanto de meu espírito fará desabrochar todas as flores que ganhei cultivei neste árduo caminho. Por isso tenho como horizonte, uma Psicologia mais negra, mais latino-americana, mais dissidente, quero ler aquilo que me representa enquanto sujeito, ou pelo menos condiz com o território que piso.
Destarte, o curso de Psicologia tem o dever de se politizar. A crítica à Psicologia tradicional ganha valor quando rompe com a concepção de ser individualista e a-histórica, ainda mais onde o ideal de psicologia é o trabalho reformista na clínica individual, ainda que muito importante, não deve ser o teto de nossos sonhos. Através da Psicologia de Libertação de Martín-Baró, alcançamos uma perspectiva dialética onde o objeto da Psicologia é historicizado e a realidade social é o ponto de partida. Não aceitamos uma clínica que ignore a luta de classes, queremos uma Psicologia que seja ferramenta de libertação e que entenda que, no Brasil, a raça é a forma como a classe se manifesta.
Não existe “trabalhador abstrato”. Existe o(a) trabalhador(a) negro(a), cuja cor determina seu salário e o nível de violência que sofre. Por isso, reafirmo: no Brasil, a revolução será negra ou não será.

