Escrevo a partir da provocação recente de um artigo publicado na Folha pelo articulista Wilson Gomes que sustenta que a política de indignação moral favorece a direita e não elegeria Lula. A hipótese tem a elegância das fórmulas rápidas. Ela sugere que a direita possui uma base moral orgânica e numerosa, enquanto a esquerda produziria apenas ruído simbólico. Mas essa leitura, ao mesmo tempo em que descreve um fenômeno real, acaba por naturalizá-lo. Como se a adesão moral fosse um dado fixo e não o resultado de uma disputa histórica, social e, sobretudo, desejante.
Há um ponto cego nessa interpretação. Ela subestima a dimensão libidinal da política. A extrema direita não vence apenas porque fala de valores. Ela vence porque organiza afetos. Porque oferece uma forma de lidar com o ressentimento que se acumula em sociedades onde o capitalismo já não promete futuro. Nesse cenário, a política deixa de ser apenas gestão de interesses e passa a ser produção de sentido para uma vida que perdeu horizonte.
É aqui que a leitura recente de Vladimir Safatle sobre o fascismo ajuda a deslocar o problema. O fascismo não é apenas um regime autoritário ou um conjunto de ideias reacionárias. Ele é uma forma de organizar o desejo social em torno de afetos negativos, como o medo, o ódio e o ressentimento, convertendo-os em adesão política. Em momentos de crise, quando as instituições não conseguem mais sustentar promessas de estabilidade, esses afetos deixam de ser marginais e passam a estruturar o campo político.
O Brasil contemporâneo carrega essa marca. A precarização do trabalho, a instabilidade econômica e a erosão de expectativas produziram uma subjetividade atravessada por frustração. Não se trata apenas de perda material. Trata-se da sensação de que o mundo deixou de fazer sentido. A extrema direita oferece uma resposta simples para esse desamparo. Ela nomeia inimigos, promete restauração de ordem, reinscreve o indivíduo em uma comunidade moral onde ele volta a ter lugar. Não é pouco.
A esquerda, por outro lado, muitas vezes insiste em responder a esse cenário como se estivéssemos ainda em um ciclo de expansão, onde bastaria redistribuir renda e ampliar direitos para reconstituir o pacto social. Há, sem dúvida, necessidade de políticas econômicas robustas. Mas elas não são suficientes quando o problema é também de ordem simbólica. Quando o que está em jogo é a forma como as pessoas se percebem no mundo.
Nesse ponto, o debate interno da esquerda sobre o chamado identitarismo revela tanto impasses quanto possibilidades. Há críticas pertinentes ao risco de fragmentação, à dificuldade de construir linguagem comum, à tendência de transformar reconhecimento em distinção. Mas há também um equívoco quando essas pautas são tratadas como desvios ou excessos. Gênero, raça e sexualidade não são temas periféricos. São modos pelos quais o poder se organiza na vida cotidiana. Ignorá-los não produz universalidade. Produz silêncio.
O problema não está nas pautas, mas na forma como são articuladas. Quando aparecem desconectadas da experiência material da maioria, elas se tornam vulneráveis à caricatura. Quando são capturadas por uma linguagem que não reconhece as ambivalências do trabalhador médio, perdem potência. Mas quando conseguem enraizar-se na vida concreta, revelam sua dimensão estrutural. A mulher que enfrenta dupla jornada, o jovem negro submetido à violência cotidiana, o trabalhador que não tem acesso a políticas de cuidado, todos eles vivem, ao mesmo tempo, economia e moral.
A tese de que a indignação moral favorece a direita perde força quando se observa que o que está em jogo não é a moral em si, mas sua tradução. A direita conseguiu construir uma narrativa onde o ressentimento encontra forma e direção. A esquerda, muitas vezes, recuou desse terreno ou o ocupou sem mediação. Não se trata de abandonar a crítica, nem de moderar convicções. Trata-se de compreender que a disputa política é também disputa de sentido.
Desde a tradição benjamianiana, toda luta política é uma luta pela percepção. Já a emergência do neofascismo nos traz a ideia-força que não há transformação social possível sem reorganização dos afetos. E talvez esse seja o ponto mais difícil. Porque implica reconhecer que o desejo não está automaticamente do lado da emancipação. Ele pode ser capturado por projetos regressivos. Ele pode desejar sua própria servidão.
Se o capitalismo já não oferece futuro, como muitos têm afirmado, a política se torna o espaço onde esse futuro precisa ser imaginado. Não apenas como programa econômico, mas como experiência vivida. A extrema direita tem oferecido um futuro negativo, uma promessa de retorno a uma ordem perdida. A esquerda precisa oferecer outra coisa. Não apenas melhores condições de vida, mas novas formas de pertencimento.
Isso exige mais do que correção de rota. Exige reconstruir uma linguagem capaz de articular economia e subjetividade, redistribuição e reconhecimento, trabalho e vida. Exige falar de valores sem abstração, falar de direitos sem distanciamento, falar de futuro sem ingenuidade. Não há garantia de que isso será suficiente. Mas há evidência de que ignorar esse campo significa entregá-lo ao adversário.
A política brasileira não está diante de uma escolha entre economia e costumes. Está diante de uma disputa sobre como organizar a experiência social em um tempo de incerteza. E nessa disputa, quem conseguir dar forma ao ressentimento, sem se render a ele, terá mais do que votos. Terá a capacidade de nomear o mundo.
*Psicanalista, mestre pela UFRGS, diretor do Instituto SIG – Psicanálise & Política e Instituto E Se Fosse Você?

