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‘IA é a próxima fronteira do crime organizado’, diz escritor britânico Mark Galeotti a VEJA


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Renomado especialista em segurança e geopolítica, o britânico Mark Galeotti refuta a ideia de que o crime é uma falha do sistema. Em seu novo livro A natureza criminosa: como o crime organizado molda a sociedade, que chega em agosto às livrarias brasileiras pela HarperCollins, o autor defende que governos e máfias nasceram das mesmas táticas de extorsão e olha para piratas, falsificadores, bicheiros e traficantes para explicar como o mundo se organizou.

A VEJA, Galeotti falou sobre corrupção, jogos de azar, segurança, inteligência artificial (IA), entre outros temas.

Seu novo livro dedica atenção especial ao Brasil e faz duras críticas às operações policiais nas favelas durante a preparação para a Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas do Rio (2016). O que o país ensina ao mundo sobre a relação entre Estado, violência e crime organizado?

Embora eu utilize exemplos do Brasil, este é um fenômeno global que revela uma verdade incômoda: a tentação de usar métodos paramilitares para lidar com o crime organizado enraizado. O problema é que isso raramente resolve a questão, apenas a desloca para outro lugar. Governos costumam ser muito bons em coerção, mas falham miseravelmente em enfrentar as raízes da criminalidade, como a dependência química, porque isso exige olhar para os próprios problemas internos. Grandes eventos de prestígio, como as Olimpíadas ou a Copa, tendem a forçar políticas apressadas que priorizam a aparência de ordem em vez de soluções reais — e frequentemente geram corrupção em projetos de construção.

Suas pesquisas sobre a Rússia revelam como redes criminosas se misturaram ao poder político. Depois de estudar tantos países, qual é o sinal mais claro de que um Estado está deixando de combater o crime organizado para começar a conviver com ele?

Um dos maiores sinais é quem está sendo preso. Mesmo em países onde há uma ligação entre gângsteres e o Estado, você verá muitas condenações, mas elas atingirão apenas o baixo escalão: o transportador de drogas, o pequeno infrator. Os líderes do sistema nunca são tocados. Além disso, ruas excessivamente calmas podem ser, ironicamente, um sinal de conexões criminosas. No Japão, por exemplo, quando a Yakuza, a instituição criminosa mais antiga do mundo, era próxima ao governo, o país era incrivelmente seguro não pela ausência de crime, mas porque havia acordos claros. A violência nas ruas, por outro lado, costuma indicar que o Estado não está conectado ao crime e que as gangues estão lutando entre si ou contra o poder público.

O senhor mostrou que, ao longo da história, quando o Estado não consegue banir os jogos de azar, ele passa a taxá-los e vira “sócio do vício”. Olhando para a regulamentação recente das bets no Brasil, a mesma lógica se aplica?

Eu não conheço os detalhes técnicos das novas regras brasileiras, mas a lógica histórica é clara: o jogo é um comportamento humano intrínseco, como beber ou fumar. O perigo não é a atividade em si, mas a gestão do sistema. Historicamente, o jogo foi uma indústria baseada em dinheiro vivo, o que facilita a lavagem de dinheiro e o vício desenfreado. Se o Estado conseguir mitigar esses dois pontos, a regulação pode funcionar, mas o grande conflito ético permanece. No fim das contas, os Estados querem arrecadar dinheiro tanto quanto os criminosos querem lucrar, e isso muitas vezes os torna complacentes com os efeitos colaterais do vício.

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Se a linha entre Estado e crime organizado é tão tênue, isso significa que a corrupção dentro das instituições deveria ser tratada com as mesmas ferramentas que usamos contra o tráfico e as milícias?

Com certeza. A corrupção é a parteira de quase todos os outros problemas criminais que descrevo. O erro é tratá-la como um “crime de colarinho branco” inofensivo, quando, na verdade, é ela que desbloqueia todas as outras atividades ilícitas. Para combater o crime organizado, precisamos ser implacáveis com a corrupção. Precisamos punir severamente os culpados e, acima de tudo, confiscar seus ativos. Não adianta prender alguém por pouco tempo se essa pessoa sai da prisão ainda rica. O desafio, claro, é que muitas vezes as pessoas responsáveis por investigar a corrupção são as que têm as maiores oportunidades de se tornarem corruptas

Depois de décadas estudando poder, crime e Estado por dentro, há algum país ou sistema que o senhor considera ter encontrado um equilíbrio ideal entre segurança e liberdade?

Não acredito em um modelo único perfeito. Países como a Noruega são pacíficos porque são ricos e têm baixa desigualdade, mas também porque muitas vezes terceirizam sua criminalidade para fora. Em vez de um modelo, eu sugiro um “buffet” de medidas de sucesso: as leis italianas, japonesas e georgianas contra estruturas criminosas são excelentes; já os Estados Unidos, apesar de seus problemas, são mestres em rastreamento financeiro para recuperar dinheiro ilícito. Cada nação deve escolher o que melhor se adapta à sua realidade.

Seu livro parte da provocação de que os Estados modernos são “bandidos sedentários”, que protegem e tributam ao invés de saquear. Hoje, há uma crise global de confiança nas instituições democráticas. Sua tese não pode ser interpretada como uma relativização da legitimidade do Estado?

Acredito que precisamos ser honestos sobre as origens do poder. Sou a favor da democracia, é claro, mas ela está em crise porque ainda opera sob um modelo do século XIX, baseado em identidades de classe que não refletem mais a nossa realidade complexa e plural. O conceito de bandido sedentário serve para lembrar que o Estado precisa trabalhar para conquistar a lealdade dos cidadãos. Se a democracia falha em entregar segurança, oportunidade e estabilidade, as pessoas começam a olhar para modelos de homens fortes, como o da China, que propõe: “Fique fora da política e nós garantiremos que sua vida melhore”. Se não modernizarmos a democracia para além do ritual de votar a cada quatro anos, ela corre o risco de morrer por complacência.

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O senhor argumenta que muitas figuras históricas celebradas como fundadoras de nações provavelmente seriam consideradas criminosas hoje. A história romantiza quem “vence” através da violência?

Com certeza. Isso acontece porque a legitimidade é a moeda mais valiosa, tanto para Estados quanto para organizações criminosas. Você pode conquistar um território pela força, mas não consegue mantê-lo assim para sempre. Por isso, criam-se histórias que justificam por que quem está no poder merece ocupar tal posição. Os gângsteres fazem isso quando financiam, por exemplo, igrejas ou centros juvenis para parecerem protetores da comunidade, e os fundadores de Estados fizeram o mesmo ao criar histórias sobre serem “escolhidos pelos deuses”, entre outros argumentos. 

Se o crime organizado se adapta a cada transformação econômica, da Revolução Industrial às criptomoedas, qual será a grande vantagem competitiva das organizações criminosas na próxima década?

Sem dúvida, a IA. Se não encontrarmos formas de regulá-la, ela oferecerá oportunidades massivas para o crime, desde golpes online hiper-personalizados — onde o spam parece ter sido escrito por alguém que conhece sua vida inteira — até a democratização do hacking, permitindo que pessoas sem conhecimento técnico realizem ataques complexos. Recentemente, em Londres, vi uma gangue de ladrões de carros, apenas dez rapazes sem grandes conexões, usando um bot de IA para analisar mercados europeus e identificar onde cada carro roubado teria o maior valor de revenda. Se pequenos criminosos já estão usando a IA para maximizar lucros, imagine o que as grandes organizações farão.



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