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Sob as ruas de Tbilisi, capital da Geórgia, um tesouro líquido inestimável acaba de ver a luz do dia. O governo do país encravado na encruzilhada entre Europa e Ásia revelou o cofre subterrâneo da antiga Fábrica de Vinho Nº 1, exibindo cerca de 30 000 garrafas de vinhos e outras relíquias etílicas — algumas com mais de dois séculos. O complexo, construído no século XIX com financiamento do empreendedor David Sarajishvili, guarda exemplares vinculados a Napoleão Bonaparte e Josef Stalin. A divulgação pública coloca o país no centro do mundo enológico e reacende a curiosidade sobre como a coleção tão única foi parar sob a antiga fábrica.
A formação da adega é uma epopeia histórica. O núcleo inicial dos vinhos franceses pertencia à família imperial russa, os Romanov. Após a Revolução de 1917, todo esse acervo foi confiscado pelos soviéticos e passou ao controle de Stalin, que o enriqueceu com seus vinhos georgianos favoritos — o ditador sanguinário nasceu no pequeno país na cordilheira do Cáucaso. Já as garrafas associadas a Napoleão teriam sido apreendidas pelo exército russo durante a retirada francesa de Moscou, em 1812. A união do acervo no solo georgiano ocorreu por manobra do próprio Stalin: temendo o avanço nazista sobre as adegas da Crimeia na II Guerra, ele exigiu que a coleção fosse transferida e escondida nos cofres subterrâneos da capital, Tbilisi, onde permaneceu escondida por décadas.

Diante de garrafas tão antigas, a dúvida é se ainda podem ser consumidas ou são apenas peças de museu. Muitas resistiram bem ao tempo. Graças à escuridão e umidade dos subterrâneos, o líquido se preservou, especialmente os vinhos fortificados e doces. No fim dos anos 1990, um comerciante australiano que visitou a adega degustou um exemplar com 100 anos e relatou que a bebida estava requintada e viva. Hoje, contudo, as garrafas são tratadas como artefatos raríssimos de colecionador, de valor histórico incalculável, e o consumo não é o foco.
Para a Geórgia, a revelação valoriza o país, berço mundial da vitivinicultura. O método local de fermentação em qvevri — ânforas de barro enterradas — é reconhecido pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial. Atualmente, especialistas da Agência Nacional do Vinho trabalham na identificação e avaliação comercial de cada lote. O próximo passo é levar os destaques a leilões internacionais, onde cada garrafa pode alcançar cifras milionárias. Os recursos financiarão a criação de uma escola de produção de vinhos na Geórgia, formando novos enólogos. Com isso, o brinde histórico pode ajudar a fomentar o futuro do negócio no país.
Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000

